segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

proposta

Interesso-me por tuas dúvidas,
pelas vias que não vês,
as questões que parecem aderir à tua pele,
a sede que não passa,
a fome intransitiva.
Traga-me as incertezas que te adotaram,
que estão aí desde sempre,
que frequentam teus murmúrios,
que enxergam na escuridão dos pensamentos
que não revelas.
Aguardo-te.

domingo, 8 de janeiro de 2012

eco

Inflação, recessão.
O mundo está são?
Queremos descer na estação
da felicidade.
Devedores, credores.
Mas quem são?
De onde vêm os fedores?
Para onde vão as dores?
Dívidas impagáveis, impalpáveis.
Qual a solução?
Dividas.
Dividas os saberes, os poderes.
Ocorre que o capital corre para aumentar
o produto interno bruto.
O que decorre?
Mais brutalidade.
Que o produto interno seja menos bruto.
Que seja ele o fruto
de mais fraternidade.

sábado, 7 de janeiro de 2012

diário de bordo

Meu barco quer navegar.
Devo hastear a bandeira da cor que invento,
até que o vento rasgue a tinta. Então, é sua
natureza quem pinta com os suores retintos
dos dias de mais verão.
Atracarei em cada um dos portos, que são 
seus poros, desembarcando luz em seus porões.
Imploro que não partas, até que sejam fartas as
ondas e canções.



tempero e temperança

O cheiro de cebola que leva os olhos da cozinha para
o mundo.
O segundo que traz o cheiro da vontade e da saudade
que se avizinha.
Nacos de canções condimentando o ambiente, temperando
meu hálito.
Hábitos condicionando as possibilidades, distribuídas
inesteticamente pelo corpo das paredes, esticadas
como redes.
Incenso, poeira solar, a memória das manhãs que não
cresceram, que se esconderam do tempo.
O templo adormecido, parecido com algo que conheço
e desacontecido como algo que pareço.
O parecer ignorando as regras e seduzindo a consulta.
A vida que exulta, diante do sorriso irreverente que atravessa
a morte e vai em frente.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

impreciso

Preciso dos ventos, dos movimentos incessantes.
Preciso do depois, do durante e do antes.
Preciso dos temporais, da força insana.
Preciso do que clama, da chama que incendeia.
Preciso da aldeia, para poder estar só.
Preciso da necessidade que salta da veia.
Preciso da teia, para então me libertar.
Preciso da falta, da ausência gritante, para poder desejar.
Preciso de um levante, do caos fecundo. 
Preciso de um instante, de um nada profundo.
Preciso de Deus, a cada segundo.
Preciso estar no mundo, mas dele não ser.
Preciso ter, para não precisar.

 

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

sem volta

Estou pensando em você.
Pensando sem pesar,
sem apesar.
Apenas pensando,
mesmo não havendo quando,
ainda que volta e meia
eu volte
para o mesmo pensar.

domingo, 1 de janeiro de 2012

o gosto

Foi preciso reunir as três primeiras horas de janeiro,
para que o sono me abraçasse. É estranho selecionar
sonhos na fronteira entre dois anos. Pegadas apagadas,
algumas apegadas aos mesmos pés, que escreverão
rotas, frotas de esperanças riscando o céu, teto de todos.
Pouco antes das dez da manhã, a primeira manhã de 2012,
decidi correr, a primeira corrida de 2012. Encontrei rostos
lavados, rostos suados, rostos cansados. Encontrei o rosto
da minha manhã. Encontrei o gosto da minha manhã.