segunda-feira, 22 de agosto de 2016

A medalha e a escola

"Sou um cara normal, só filho da Dona Didi, de Pirituba. Vou pegar meu filho na escola. Isso tudo aqui, amanhã, passa."
Serginho, da seleção brasileira de vôlei, medalha de ouro nas Olimpíadas, eleito o melhor jogador da competição, em sua modalidade, disse essas palavras. 
Ou seja, disse tudo! 
Ortega y Gasset já nos advertira de que somos nós e nossas circunstâncias". Como as circunstâncias transitam em nossas
vidas apenas transitoriamente, restamos nós. Como nós transitamos pela vida apenas transitoriamente, resta a vida.
Intransitivamente!

sexta-feira, 22 de julho de 2016

Ou

Considere a rota mais remota
Acenda a vela esquecida
Considere até o que dizem ser idiota
Desde que rime com a sua vida
Considere voltar atrás
Sem olhar no retrovisor
Faça o que pouca gente faz
Ou seja: amar o amor
Considere apagar as pegadas
Só pelo amor à aventura
Subir pelas paredes é melhor que por escadas
Assim se enfeita a noite mais escura
Considere acariciar o erro
Envie com todas as rasuras o rascunho
A fala mansa não desconsidera o berro
Assine suas melhores loucuras com o próprio punho
Considere a mais estranha pessoa
Como o que está escondido em você
Não é verdade que o tempo voa
Ele nos acompanha e a gente não vê
Considere expressar gratidão
Em meio à maior tempestade
Nos momentos difíceis de solidão
Você não se sentirá a metade
Considere jogar tudo fora
Olhe em volta e perceba o que sobrou
Você sempre teve o que terá agora
Ou isso lhe basta ou...

terça-feira, 5 de julho de 2016

Olimpíadas de verdade

Durante as Olimpíadas (e depois dela) mostrem ao mundo a imagem do Rio de Janeiro sem photoshop. 
A cidade é linda e feia, com todos os seus trastes e contrastes. É preciso conhecer os desvãos, para que o amor não seja em vão. O Rio é a Barra e a Tijuca, também. É a Lagoa, a Rocinha, Gamboa e a Cidade de Deus. Para que endeusar as zonas sul e oeste, se há, sim, beleza no subúrbio, ainda que diferente? A Cidade Maravilhosa estará nas lentes do Planeta e nada recomenda a deturpação de suas realidades. Há esgotos a céu aberto, poluição de rios, lagoas, mares, desigualdades em todos os lugares. Ruas são dormitórios para gente anônima há tanto tempo, que se alimentam de restos e de vento. Buracos multiplicam-se, como a fortuna de gente graúda e tão miúda de espírito. Mesmo assim, a integralidade do Rio deve ser mostrada. O que de macio existe em sua pele, sem a exclusão das cicatrizes, as veias das vielas. Nossas atrizes são naturais - praias, cachoeiras, matas e o Cristo.
Mas, por Ele, aproveitemos a oportunidade tão especial e permitamos "nudes" de nossas contradições. Só assim conseguiremos, um dia, vestir a cidade com nossas mais antigas e rejuvenescidas aspirações. Que a verdade suba ao pódio, deixando na poeira a mentira e o ódio!

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Defeitos perfeitos

"Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro."
A frase, de autoria de Clarice Lispector, ajudou-me a compreender um mundo de coisas. A crucialidade dos defeitos, das faltas, das fomes, das fobias, dos sintomas. Precisamos dos nossos sintomas ( e eles de nós).
Eles nos salvam do poço sem fundo, dos fantasmas que assombram o castelo de nossas mentes assombrosas. Inconscientemente, rejeitamos os antídotos, as vacinas que poderiam controlar as patologias que escolhemos. Fugimos da cura, não queremos essa cruz. Preferimos a nossa, cujo peso nos é familiar. Temos bolsos do tamanho de nossas carências e não das nossas posses. São exatamente as dores que fazem poses. De tão narcisistas, elas querem luz, câmera e muita ação. Maldito governo, time sem vergonha, pessoa que não quero ver nunca mais, juiz ladrão, vizinho chato. Tempo que não passa, tempo que passa rápido demais, calor insuportável, tanto quanto o frio. Tudo e nada, juntos e misturados. Saturados um do outro. Mas um é pouco, dois é bom e três é demais. Então, deixa como está. Mas não nos peçam para deixar de reclamar! Amando pelo avesso, buscando o sucesso do insucesso. A mando do superego, que não tolera a saciedade. Maldizendo o desejo, por tanto desejar. Só não tirem da gente os problemas. Esta falta (e somente ela) não conseguiríamos suportar!

A vela e o vento

Chuto de trivela e nem olho para saber se foi gol.
Sou a própria vela e, por não ser o vento, 
sabe-se lá por onde vou...

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Quiçá

E, se não tiver razão,
loucura não me faltará...
Pois entre o sim e o não,
eu me abraço ao quiçá!

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Desejo

Desejo é mais, muito mais que necessidade. 
E desejo não é energia estática nem estatística. 
Desejar é algo que começa por dentro e se espalha pelo entorno da mente e da alma. É possível desejar ardentemente, aos solavancos, mas é ainda mais gostoso quando se acrescenta a calma. E não se iludam: calma não é antônimo de intensidade. A calma qualifica o desejo. Não se trata de ir aos poucos. É a capacidade de ir onde poucos vão. 
O mais é apenas correr e sofrer em vão!