domingo, 27 de maio de 2012

o riacho e a correnteza

Tenho em mim
sóis que procuram céus adormecidos
e luas ciganas que acampam em dias escondidos.

Tenho em mim
gritos sem eco
e vozerios de boteco

Tenho em mim
pedacinhos de eternidades
e rascunhos de saudades

Tenho em mim
emoções em carrosséis
e quadros colados em pincéis

Tenho em mim
o mal e a cura,
o encontro e a procura

Tenho em mim
o riacho atormentando a correnteza
e zil dúvidas orbitando uma certeza

Tenho em mim
tantas coisas partidas
e esperanças recém paridas


sábado, 26 de maio de 2012

suspensório

Sou livre e tenho compromisso,
pois é de mim, da vida e de quem
gosta de ambos que eu preciso

Sou livre para optar
por inapetências e apetites
A festa começa
quando remeto os convites

Sou livre para ler ou não
ler seu livro
E Deus me livre
do reincidente crivo

Minha consciência é meu farol constante
e não mero acessório
Eu mesmo seguro a minha calça,
não preciso de suspensório

sexta-feira, 25 de maio de 2012

liberdade.com


Que tal compartilhar liberdades?
Um casal só é singular na grafia, pois há dois em cena.
Originalidade, individualidade não são inimigas do compartilhamento.
O preço de um relacionamento amoroso não deve ser o embotamento,
a asfixia da história de cada um. Não é necessário pedir sempre o mesmo
prato no restaurante, a mesma bebida. A embriaguez saudável pressupõe
livre arbítrio, independência psicológica. As simbioses sufocam apetites, são
convites ao tédio. Há remédio para a insegurança, que tem raízes profundas.
Mas cuidado com a mistura de desamparo e despreparo. Chantagens, ciladas
emocionais desidratam sentimentos. Verbos podem e devem ser conjugados na
primeira do plural, mas qualquer exagero deixa de ser normal. Nós é palavra
terna, mas ao se pretender eterna transforma-se cruelmente em nós de marinheiro,
difíceis de desatar.

Eu sou livre. Você é livre.

Vamos experimentar o som?
Acredite, temos esse dom:

liberdade.com

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Avesso



Sou bandeira que tremula quando não há vento
A cadeira aconchegante pra te dar alento
Sou trovão que sacode o ar comprimido
A mão que te acode ao primeiro gemido
Sou centelha de loucura onde não há nada
A telha que te cobre mesmo encharcada
Sou o vinho que embriaga e te deixa insana
O ninho em que repousas, sou a tua cama
Sou o avesso do que sabias, como devia ser
O começo que não termina, deixa acontecer

quarta-feira, 23 de maio de 2012

A ética da estética

Errar é humano?
Nada mais humano que o erro. 
Celebro as imperfeições, algumas delas feitas à minha feição.
Abençoados os senões! Muito além de relevá-los, quero levá-los
comigo, com todo o afeto, para que neutralizem os preconceitos anões.
Errar é preciso, para que não pesem em demasia as imprecisões.
Centímetros a mais ou a menos, assimetrias veniais são esquecimentos geniais
do criador.
Quando chego a algum lugar onde tudo está milimetricamente "correto", sinto-me
desconfortável. É tão instável a perfeição! Gosto de almofadas distraídas, distribuídas
sem critério, para que cabeças relaxadas as alcancem e braços não se cansem de 

abraçá-las,sem receio de perturbar a estética. E que ela não nos perturbe.
Viva a ética da naturalidade!!
Marcas de expressão são traços bem vindos, feitas pelo arquiteto da natureza.
Saúdo a beleza acrescida pelo tempo, aquela que não se compra e não se vende e nem mesmo 
o mais forte vento é capaz de arrebatar.
Vida longa à juventude que a certidão de nascimento não consegue certificar.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

reinvenção


É engraçado, nos meus sonhos não há tempo. Tudo simplesmente acontece ou desacontece. Aliás, os desacontecimentos são imprescindíveis. O que desacontece abre espaço para o novo, convida-o para a festa. E não se trata de enfadonha troca de guardas. É a fresta para a renovação, para o inusitado. Meu tempo está interditado para a repetição. As coisas mudam e a vida não é muda. Ela fala, até quando se cala. E tudo vem a calhar.
Gosto de estacionamentos e ruas quase vazios. Gosto de momentos vadios. Posso povoá-los com minha imaginação, há espaço para que ela (a imaginação)deite e role sem censura e sem pudor.
Dizem que Deus escreve o certo por linhas tortas. Eu, que gosto tanto das curvas, leio e creio no poder da palavra grávida de luz, desvirginada pela liberdade.
O pássaro rasga o silêncio da manhã com seu canto, nem alegre nem triste, só para me lembrar que a manhã, a alegria e a tristeza existem e insistem para que eu saia do meu canto e cante também. Amém !
Houve um tempo em que eu pensava que a vida me segurava, que ela me assegurava que o vento ventaria, que a chuva choveria, que o amor me amaria, fosse como fosse. E eu fui!
As árvores que plantei no meu jardim balançam na contramão do vento, só para brincar com ele, para que ele se reinvente. Devo fazer o mesmo!

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Rapel

Estrelas passeiam pelo céu, 
mesmo que não as vejamos
Dentre elas, uma eu desenho num papel
e lá nós ainda nos amamos

Escalo o túnel do tempo num rapel
até tocar nas nuvens
Se me alcançares, eu tiro o chapéu
Mas será que tu vens?