quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Teto e afeto

Quero teto e afeto para quem não tem
Quero paz, mas alegria também
Quero escolas que ensinem a pensar e a fazer
Quero ver, de mãos dadas, o trabalho e o lazer
Quero que a pátria amada nos ame
Quero amar sem receio de dar vexame
Quero botar meu bloco na rua
Quero colar minha saliva na sua
Quero o fim de tanta desigualdade
Quero o preto no branco, de verdade
Quero gente que goste de gente
Quero respeito pela Natureza, urgente
Quero o aconchego de amigos do peito
Quero inclusão, o resto eu rejeito
Quero viajar dentro e fora de mim
Quero conhecer sua alma, tim tim por tim tim
Quero virar você pelo avesso
Quero ter comigo tudo que não tem preço.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Os donos dos erros

Sinto falta, também, do que não me falta, 
diante de tantas injustiças, 
tantos abandonos, 
tantos erros sem donos.

A verdade e a sabedoria

Verdades absolutas são frutos da certeza, 
erva daninha que infesta as plantações de sabedoria.

A pino

Vaidade a pino
Disparo, opino
A tarefa diária, árida, de descascar pepino
Na falta de água, se pintar uma pipa, empino
Cercado pela selva das ruas, reajo, capino.

domingo, 27 de dezembro de 2015

Lugares

Qual o seu lugar no mundo?
O lado da cama, a localização da poltrona nos aviões, um lado do sofá, o Posto da praia, o setor da arquibancada no estádio, janela ou corredor no ônibus, a mesa no restaurante. Todos escolhemos nossos lugares, mediante critérios nem sempre lógicos e conscientes. Mas a escolha deve ser nossa, por identificação, conforto, segurança, aconchego ou mero exercício da liberdade. 
Afinal, já que o mundo é o seu lugar, só falta torná-lo mais habitável e atraente ao seu olhar. De alguma forma, você também é o lugar do mundo. Portanto, prepare-se para recebê-lo, da mesma maneira que você gosta de ser recebido.
Feliz 2016!

domingo, 6 de dezembro de 2015

o sabiá e as gravatas

O sabiá ciscava, buscando gravetos para construir um ninho.
Ele nem sabia que sábios sem gravatas embriagam-se com 
buscas, mais do que com vinho.

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Que zica

E nós, que já tivemos o Zico,
agora somos espreitados pela zica.
A bola da saúde pública está tão murcha 
que nem quica.

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Apelidos

Não digo o seu nome,
mas ele está em meu rosto
e no resto de você, que fica em mim
e nunca some
Não digo o seu nome,
mas você tem tantos apelidos,
em silêncio tantas vezes repetidos
Você é a minha melhor fome

zumba e zumbi

Da zumba ao zumbi.
Remédio para dormir, remédio para acordar.
Será que precisamos é de um remédio que nos livre dos remédios,
que só remediam, sem curar?
Da zumba ao zumbi.
As mil e tantas exigências da vida maratonista, fatigando até o auge do frenesi, quando as pernas da consciência começam a formigar.
Da zumba ao zumbi.
Estou pensando em chamar o zumbi pra dança, quem sabe ele até perde um pouco da pança e se esquece de assustar?

estrelas, poesias e embarcações

Dormi no telhado. Ah, nem foi a primeira vez. Alguns dos meus versos não me acompanharam. Mas a poesia estava ao meu lado.
Estrelas eu me habituei a vê-las. Fascina-me aquele brilho intenso e distante, como velas de um barquinho em que jamais naveguei, segundo a lógica. Como nem sempre ela é minha única inquilina, uma voz marota disse para mim que o mar tem infinitas rotas e
que posso ter viajado naquelas embarcações, sim.
Quando acordei, ainda havia estrelas, poesias e embarcações. Só que estas estavam dentro de mim.

Rios de lama

Mariana, o Brasil e a Terra precisam de Dalai e não de lama.
Precisamos ser focas para manter o equilíbrio, em meio a tantos terremotos que nos fazem balançar. Mas as focas estão sofrendo com fofocas e com o alarmante desprezo pela Natureza. É que para muitos a acumulação, o enriquecimento predatório é algo bastante natural. Rios de lama levam na enxurrada o que encontram pela frente. Depois, a gente olha para trás e como é doloroso não se encontrar mais. Para onde levaram a doçura do Rio Doce? Será que a pena vale?
Onde nadarão os cisnes, nesse oceano de cinismo? Dados viciados por quem cultiva o vício do poder, atirando seus dardos a esmo. E os alvos são de todas as cores. A saída pode até passar por um beco, mas não há quem me faça acreditar em becos sem saída.

a escova e os dentes

Enquanto eu escovava meus dentes, um avião decolou, uma lágrima caiu, um vestido foi eleito, um candidato sucumbiu. Enquanto eu escovava meus dentes, nasceu um filhote de gambá, cujos pais não receberam abraços de um tamanduá e nem por isso deixaram de ficar felizes. Uma carta foi escrita (sim, ainda se escrevem cartas), lembranças foram apagadas, luzes acenderam-se e minha escova de dentes foi guardada.

domingo, 18 de outubro de 2015

Nossa excelência

Muitas vezes, a excelência é nossa e não vossa.

domingo, 4 de outubro de 2015

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Elas ou eu?

Lágrimas caem em meus olhos
E nem sei de onde elas vieram
Às vezes parece que o mundo usa antolhos
Foram elas ou meus olhos que quiseram?
Quando a luz se apaga, eu me acendo e oro
Quase posso ouvir o que as estrelas gritam
Como você sabe, eu nunca choro
Por que será que as nuvens dizem que me imitam?

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

De votos e devotos

Políticos e monges ficam isolados. 
Uns por consequências que os sufocam.
Outros pelas causas que abraçam.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Janelas

Para que servem as ruas, a não ser para sermos elas,
entrarmos nelas, como faz a vida com as janelas?
Para que servimos nós, a não ser para sermos o que
diz a nossa voz, como fazem a vida, a janela e faremos nós?

O que e como

Vi um filme há tempos, creio que "Uma noite em Las Vegas", em que um homem de meia idade é seduzido por uma jovem muito atraente em atributos físicos. Quase entregue à lascívia, com o ego trovejando de tanto prazer, ele recua subitamente e diz à beldade: sou casado há quase 40 anos com uma mulher que amo muito. Em todos esses anos, habituei-me a lhe contar tudo que de extraordinário me acontecia. Eu não poderia contar à minha mulher o que está por acontecer aqui. Então, é porque isso não é extraordinário. E se afastou da mocinha.
Kant disse que tudo que não pode ser dito como foi feito...não deve ser feito. Ótimas reflexões para todos nós, habitantes de um mundo cada vez mais confuso, em que princípios são esquecidos, como smartphones, tablets e outras coisinhas alcançadas pela obsolescência.
Sou tentado a acreditar, por otimista incorrigível que sou, que nossa civilização é uma pequena criança. Ela ainda está engatinhando. Mais tarde, aprenderá até a compreender e a respeitar os gatos.

Alguéns

O amor não é uma rendição, mas uma reedição constante de afeto e dos efeitos que a reciprocidade desse afeto causa em quem ama e é amado. Não se trata de estabelecer condicionantes para o exercício do amor, mas afirmá-lo com profundo senso de responsabilidade, pois amar alguém significa desejar o melhor para esse alguém e para todos os "alguéns" que se relacionam com o ser amado. Nesse sentido, amar é e será sempre um ato coletivo, social. A conquista das coisas demanda esforço e reforço. Apreço não tem preço e, por isso, ninguém pode vender ou comprar e nem mesmo comparar.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

a giz

Você não precisa fazer ou não fazer o que eu fiz
Seja simples e originalmente feliz
Importante é a história, escrita com caneta, lápis ou giz
O certo, o errado, o eterno e o fugaz sempre estarão por um triz.

sem segredo

O segredo da vida é não ter segredo
Andar com destemor por onde desanda o medo
Dormir melhor, ou seja, acordar mais cedo
Não fazer da existência uma novela, ao escrever seu próprio enredo
Compreender que a brincadeira fica muito melhor quando ninguém é dono do brinquedo.

sexta-feira, 31 de julho de 2015

O papel do presente

Cartomantes, quiromantes e até amantes adoram falar do futuro. Mas ele é só um furo no papel do presente, antecipando o conteúdo. Já eu pouco me interesso pelo devir e o motivo é singelo: apego-me às expectativas, ainda que vãs, aprecio o percurso, mesmo que haja percalços. Aliás, como é bom ver minha ingenuidade sonhadora andando de pés descalços. Se vou bater um pênalti, ao dar os passos até a bola, rola dentro de mim o filme inteiro, o sorriso da satisfação, a vibração da torcida. Se me fosse dado o poder da premonição, nada disso teria graça. É a possibilidade do sucesso que empurra nossos medos, ladeira acima ou abaixo. As incertezas são o charme de todas as tentativas. Deixem que eu me iluda, que lute contra moinhos de vento. Muito melhor ser um Quixote do que aquele que enxota as fantasias. Para que temer as alturas e jamais tirar os pés do chão?

O trem

O trem pode passar apenas uma vez na estação.É possível até que nem pare. apenas reduza a velocidade. Para viajar na composição, é preciso escolher um dos vagões e conseguir entrar nele. Sendo que o candidato estará com ao menos uma das mãos ocupadas, segurando a alça do seu destino e/ou desatino. O aventureiro desconhece o itinerário, o condutor e o preço daquela passagem. Sabe apenas que é um fugaz vagão, uma vaguinha no que imagina ser sua direção.

quinta-feira, 30 de julho de 2015

pessoas e coisas

Hoje é o Dia de combate ao tráfico de pessoas. Santo Deus, gente comercializada como se fora coisa. Se há quem venda, há quem compre. E eu que cheguei a pensar que a escravidão havia sido abolida. Quanta ingenuidade! Seres humanos com tabelas de preços equivale à compreensão de que a humanidade anda pelas tabelas. Ao mesmo tempo, coisas são valorizadas como se pessoas fossem. Smartphones, tablets são apaparicados, acariciados permanentemente por mãos sôfregas de tato. Essas máquinas não raramente recebem mais atenção que filhos, pais, amigos. Até porque as amizades cabem, todas, dentro delas.
Não se deve vender ou comprar gente, pois gente não tem preço. Quanto às máquinas, superestimá-las pode custar muito caro.

domingo, 26 de julho de 2015

O contador

Contar moedas e vantagens não faz a minha cabeça.
Contar histórias e estrelas, sim, é bom à beça!
Contar mentiras é bola fora.
Contar as horas? Melhor agora!

quarta-feira, 15 de julho de 2015

na marmita

Se for passar muito tempo fora de casa, leve na marmita suas verdades. Assim, você não correrá o risco de intoxicação com as que são vendidas a quilo, de procedência incerta. Mas cuide de mudar o seu cardápio, de vez em quando. Verdades são produtos perecíveis e, assim sendo, perdem o valor nutritivo e o sabor pela ação do tempo. Consuma com moderação.

terça-feira, 14 de julho de 2015

Gastronomia para corpo e alma

Quero amor e cardamomo
Se tiver um bom vinho tinto, 
eu tomo
Quero alegria e berinjela
E uma porta escancarada.
no mesmo lugar da janela
Quero cumplicidade e arroz integral
E um punhado de sonhos,
brincando no quintal
Quero bom humor e batata doce
Com o tempero que foi
e mesmo que não fosse
Quero ousadia e nirá
Colhendo os frutos que não via,
mas sempre havia lá
Quero bom senso e pimenta
Pedindo insistentemente ao coração:
aguenta!

segunda-feira, 13 de julho de 2015

diariamente

As oportunidades são asas muito poderosas. Contudo, é preciso sintonia com elas (oportunidades e asas), para alçar voos e chegar até, no mínimo, as cercanias dos cumes. Mas não se confunda oportunidades com oportunismos. O oportunista apropria-se das asas alheias e segue rastejando, por não saber voar com recursos próprios. 
Gasset, que cito incansavelmente, ensinou-nos que somos nós e nossas circunstâncias. Acontece que a primeira e grande dificuldade está em sermos o que somos. Ou seja, vencermos os cansaços emocionais, jogarmos fora tudo que deve ser eliminado, como preconceitos, hesitações, covardias. Enquanto acreditarmos que o outro é melhor, mais forte, mais influente, mais capaz, isso será verdade (ao menos, para consumo interno). Botar para quebrar é o mantra a ser entoado. Para quebrar algemas, tolices com grife, crenças paralisantes, fobias e outras tantas armadilhas com forte cheiro de naftalina.
Revirar gavetas existenciais, em busca de algo que ficou lá dentro, embaixo de muitas quinquilharias e que pode ser de muita valia para enfrentar e afastar, uma após outra, as mais valias que tentam, a todo custo, colar em nós.
Não somos figurinhas de álbum, para ser trocados por colecionadores, a seu bel prazer. Nascemos para ser livres e para assim sermos devemos compreender que libertação é ato diário e não extraordinário.

domingo, 12 de julho de 2015

achados e perdidos

Há quem se encontre em meio aos perdidos.
Alguns se perdem tentando encontrar.
Há quem se salve, entre mortos e feridos.
Outros matam, tentando se salvar. 

Muitos se perdem, por ficarem escondidos.
Uns poucos se encontram, por deixarem de achar.
Quase todos acham que devem ser os escolhidos.

Mas como é tão mais fácil ser narina do que ar.

quinta-feira, 9 de julho de 2015

pernas bambas

Só por hoje e para sempre. 
O desejo desesperado de que aquele dia não acabasse nunca, que a esperança não migrasse da testa para a nuca. Amor ousado, usado e abusado, realmente platônico, a ponto de deixar o próprio amor atônito. A busca desenfreada e brusca, que não cessava nem mesmo ao compreender que o que se queria era a busca e mais nada.
Prazer vendido com outro nome no rótulo, sem atentar para o prazo de validade do produto. Atentados contra a lucidez, pela desconfiança de seus perigos. Tiroteio de pensamentos em meio à poeira do faroeste caboclo. A tentação de salvar nossos filhos,
na mesma encruzilhada dos nossos pais. Tentou chorar e conseguiu. Quem lhe dera, ao menos uma vez...e lhe foi dado, mais de uma. E os dados ainda estão rolando. As possibilidades tantas, tântricas, excêntricas. E as impossibilidades tão redutoras quanto sedutoras. Das duas uma? Que venham ambas, para deixar as pernas da inércia bambas.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

temperos da vida

A gastronomia ensina muito aos relacionamentos humanos. 
Sobretudo, no que tange à noção de medidas. Sal, açúcar, pimenta, frio, morno e quente. Há coisas que o olhar humano não percebe, mas a alma sente. Uma pitada pode e tem significados diferentes, aos ouvidos e às sensibilidades particulares. Todos querem ser chefes, apenas alguns têm o dom dos "chefs". Receitas não podem ser seguidas ao pé da letra, é necessário adaptá-las aos mais diversos paladares.
A entrada deve deixar espaço para o prato quente e este à sobremesa, que deve aguçar a ideia do cafezinho, senha para a saída.
Tanto no âmbito da culinária quanto no trato com as pessoas, o cardápio deve ser variado, sem excessos. O que permite escolhas conscientes. Mas a intuição é essencial, como parceira preferencial da criatividade, que consegue (só ela) juntar na mesma mesa o bom senso e a ousadia - combinação de temperos de dar água na boca, como sempre acontece com todos os encontros que fazem jus ao nome.
Bom apetite!

sexta-feira, 3 de julho de 2015

sociedade muda

Se a educação sozinha não muda a sociedade, sem educação a sociedade fica sozinha, muda. E a sociedade deseducada e sem voz grita, urra, geme. De que adiantará prender esses gritos, urros e gemidos se, ainda assim, eles serão ouvidos?

segunda-feira, 29 de junho de 2015

antes, durante e depois

A vida acontece em três dimensões: o antes, o durante e o depois. Contudo, mais que nunca, valoriza-se o depois, em detrimento das outras instâncias. O resultado final é exaltado e é em função dele que se constroem ídolos e proscritos.
Mas a preparação para todos os caminhos e o próprio caminhar são tão ou mais relevantes que a chegada. Tudo está integrado e assim deverá estar, caso se almeje mais que eventuais e ilusórias vitórias. Os marombados e marombadas são produtos de produtos. Ostentam a exuberância de fórmulas químicas, que garantem satisfação fugaz e consequências preocupantemente duradouras. Justamente numa sociedade em que nada é feito para durar, em que tudo se torna obsoleto, para ser trocado por versões mais modernas (inclusive pessoas?). Aliás, a era da confluência estranha entre tudo e nada.
A felicidade, a beleza física, o poder têm que ser perpétuos. Qualquer dia, inventarão refis de alegria, capazes de renovar sorrisos de plástico e expressões faciais de difícil interpretação. Drogas garantem a ereção. Mas ela é o produto final também?
Se for esse o raciocínio, o orgasmo será tudo que se busca (e é?). Orgasmos são o depois, depois dos olhares, das carícias, da sedução sem pressa. Novamente, são minimizados o antes e o durante, em benefício de um depois cujos benefícios são bastante discutíveis.
A ideologia do resultado resulta na deterioração da própria ideologia. Pois ao apostar todas as fichas no desfecho, estamos fechando os olhos para tudo aquilo que os faz brilhar, de verdade.

curvas e corvos

A água turva do poço esconde de mim tudo que não posso.
A curva esconde da reta o que está logo atrás da seta.
O corvo aguarda o desfecho do trabalho do guarda.
A água que escorre dos olhos do preso também não tem liberdade. Ela não pode fugir do poço, da inutilidade das setas e do cansaço do guarda.
Mal ou bem, resta o corvo, que tem asas, mas não conhece o bem nem a maldade.

domingo, 28 de junho de 2015

maneiras maneiras

Há muitas maneiras de viver o domingo. 
Alguns preferem à flor da pele. 
Outros, dormindo.
Há muitas maneiras de viver. 

Algumas mais maneiras. 
Outras, vai saber...

o tesouro

Qual o maior tesouro:
tez ou ouro?

sábado, 27 de junho de 2015

as portas

São duas portas, feitas com afinco.
Que levam e trazem.
Duas portas sem trinco.
Que nunca se fecham e nem se abrem.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

ferrão e mel

Seja você, despudoradamente
Seja integral, com casca e sabor
Seja o corpo da sua semente
Seja lá o que for
Seja Sol e Lua no mesmo céu
Seja aquarela, que não escolhe cor
Seja abelha, com ferrão e mel
Seja tudo que é, com amor

domingo, 21 de junho de 2015

harmonia

A única forma de ser verdadeiramente humano é perceber e aceitar as inúmeras formas de ser humano. Assim, o masculino e o feminino podem (e são) exercidos pluralmente. Pouco a pouco e cada vez mais despontam comportamentos, que só enriquecem o repertório de originalidades. Tendências, apetites, aptidões, estilos quase tão diversos quanto os indivíduos. Não me choco com dois homens ou duas mulheres expressando carinho e desejo entre si. O que me aturde é a idiotice da intolerância, do repúdio àquilo que, possivelmente, é mantido acorrentado nos porões do intolerante, tão raivoso quanto inseguro. Espero que muito em breve cristãos, muçulmanos, espíritas, judeus, palestinos e xiitas acolham-se, sem que seja preciso encolher diante das próprias escolhas. O amor e o desejo não são hétero, homo, bi ou trans. Plúrimos é o que são e somos, tão mais felizes quanto mais livres formos. Viva o afeto inteligente, que torna tão normal o diferente!

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Até quando?

Com a globalização das verdades, pesos e parâmetros passaram a ser definidos ditatorialmente pela voz mansa e sedutora da propaganda. Assim, a supremacia (individual e coletiva) tornou-se a grande vedete das prateleiras, objeto de desejo de 11 entre 10 entrevistados. Busca-se performance, desempenho, resultado, vitórias, conquistas. Por isso, o repouso está em baixa. Quem ousará declarar-se exausto, no limite, se não haverá quem o imite? Todos ou quase todos caçam recordes, que devem ser superados sistemática e desumanamente. Você é o que suas medalhas e troféus, metafóricos ou não, dizem que é. E se não os tiver, deixa de ser. É preciso ter para ser. Desde uma barriga negativa
até investimentos financeiros mega positivos. Os sinais exteriores de prosperidade e riqueza certificam o pedigree, a superioridade, ensejam exclamações de bocas e olhos escancarados de fascínio. Concomitantemente, também são detonadores de outros sentimentos, de índoles diversas. Inveja, daqueles que cultivam os mesmos valores, mas apenas interiormente. Indignação, dos que gostariam de ser mais valorizados pelo que são e fazem. Que fase!
A lógica do pragmatismo impiedoso e tacanho resulta na defenestração de muitos profissionais. Pouco importa a seriedade do trabalho deles. Investimento na própria formação, planejamento estratégico, fortalecimento do grupo...nada disso segura a fome insaciável do imediatismo. Amanhã é tarde demais, depois de amanhã é nunca mais. A máquina de moer nomes e projetos é anônima e reduz tudo a meros dejetos. X é substituído por Y, este por Z e a ciranda não termina jamais.
Vivemos sob o jugo da ideia da perfeição, da infalibilidade, da hegemonia.
Até quando?

sábado, 6 de junho de 2015

Barcéulona

Aturdido por tantas notícias ruins, assolado por escândalos e por uma escandalosamente prolongada entressafra de talentos, eis que, diante de meus olhos desabituados de admiração, jogam Barcelona e Juventus a finalíssima da Copa dos Campeões da Europa. Fora apenas uma partida de futebol e seria o bastante para aqui declarar meu entusiasmo. Explico: ontem tive o desplante de passar hora e meia sendo torpedeado por cenas paupérrimas do jogo Botafogo e Mogi Mirim. Diga-se de passagem, esse confronto não fica muitíssimo distante de tantos outros que castigam os torcedores de futebol mais abnegados.
Barcelona e Juventus redimiram a mim e a todos que, quase esquecidos dos fundamentos mais elementares do esporte bretão, estão a um passo de habituar-se com a tragédia dos passes mais equivocados que os políticos pátrios. E na classe política incluo, como deveria fazer, muitos dirigentes de entidades desportivas. Afinal de contas, eles também têm estranha resistência às prestações de contas e ainda mais insólita paixão pela obesidade de suas próprias contas (bancárias).
O Barcelona, da Espanha, representa a técnica apurada, o virtuosismo, a primazia da ofensividade, o fascínio pelos beijos da bola nas redes adversárias. A Juventus, velha senhora italiana, a despeito de bons jogadores, adota estratégia mais defensiva, o pragmatismo de apostar no erro fatal do oponente, a objetividade cartesiana, sem compromisso assumido com o encantamento.
Por tudo isso, escolhi a equipe catalã como minha favorita, por indiscutível identificação com o que ela significa no cenário futebolístico atual e no imaginário do embate entre poesia e concretude.
Vieram-me à mente as impagáveis conversas de bar, pessoas a quem se quer bem, a descontração, a informalidade, os guardanapos tatuados de rabiscos inspirados. Paralelamente, a visão de incontável aglomeração de estrelas no céu, convidando às mais alucinadas abstrações. Para completar, a magia guardada pela lona do circo, a leveza plástica dos trapezistas, a alegria dos palhaços, as surpresas das cartolas dos mágicos.
O lúdico, o etéreo, o enigmático contrariando o lúcido, o sólido, o invariável.
Assim é e foi o Barcelona hoje: embriagante como as resenhas dentro de um BAR, estelar como o CÉU que nos tira do chão, envolvente a ponto de levar à LONA o adversário. Barcéulona, desculpe-me pelo neologismo e receba meus aplausos de pé, pela capacidade de fazer com os pés as fundamentais carícias no corpo e na alma da arte, mãe de todas as coisas mais belas.

sexta-feira, 5 de junho de 2015

uma chance

Quero o grito mais profundo, alguma coisa tão diferente, que pareça vir de outro mundo. Quero a timidez desvirginada, vestida de desejo e mais nada. Quero torrentes de calores e frios, enfeitando minha pele de arrepios. Quero abdicar de todo aprendizado, deixando o tédio completamente entediado. Quero nova terra e novo céu, provar a chuva com gosto de mel. Quero vontades escancaradas menos atentas às saídas que às entradas. Quero redimir desistências e arquivar para sempre as penitências. Quero comemorar a volta da simplicidade, quero paz e alegria na minha cidade. Aos humildes exaltação, aos exaltados compreensão. Quero a noite com sabores e o dia sem dissabores. Quero crianças na escola e não na prisão, reprimir a desigualdade e distribuir compaixão. Quero abrir as gaiolas medievais e lutar para que não se fechem nunca mais. Quero apontar para o esquecido uma chance e torcer para que ele a alcance.

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Ateus

Acreditávamos que a velhice era o portal da sabedoria. Após mais ou menos seis décadas, construímos o pressuposto da maturidade emocional, algo que induzia à ideia do equilíbrio,
serenidade, mansuetude.
Contudo, fatos recentes conspiram contra tal compreensão. Longevidade começa a desenhar-se como mero acúmulo de primaveras. Ao mesmo tempo, é chocante a percepção de que septuagenários, octogenários sejam também colecionadores
de outros artigos, alguns deles inclusos no Código Penal.
Céus! Poderiam ser nosso avôs e possivelmente têm netos.
O que estarão dizendo a seus descendentes? Quais as desculpas para culpas tão graves, se é que se desculpam ou mesmo sentem-se culpados. Talvez nutram desde sempre a
máxima de que ser rico é o máximo a ser aspirado pelo ser humano. Opulentos céleres, na busca infindável de amealhar vantagens, regalias, privilégios. Capazes de atropelar princípios, pela supremacia dos fins a que se propõem.
Que herança maldita legarão aos seus, hein? Metais, papéis, atas de negociatas. Materialmente aristocráticos, espiritualmente plebeus. Mas é provável que para esses neo senhores feudais todos os demais, que não compartilhem a sua cega adoração ao capital, sejam periféricos ateus.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

corredores do tempo

O tempo corre, a vida escorre e tudo transcorre em aparente naturalidade. Corro da cama para o trabalho e dele para ela.
Corro para pegar o ônibus e ele para me pegar. O sangue corre em minhas veias, inflando as velas que fazem o barco correr.
Cruzo os corredores correndo, corro para abraços nômades, que não conseguem parar, que não podem parar. E não reparo em tantas coisas que merecem reparo. As teclas correm para os meus dedos, assim como as mensagens para meus contatos.
Corro para abrir e fechar contratos, para estampar retratos exaustos de tanto se multiplicar. Corro para amar o meu amor, que pode estar correndo para amar-se e só então poder me amar. Corro para o dia que ninguém sabe se virá, mas meus pés sabem se virar para chegar antes de outros pés. As notícias correm pelo mundo e ele em busca de novidades. Mas elas se cansam de correr, mudam de idade, de cidade. Quanta praticidade nas maratonas que colecionamos. Lecionamos disciplinas indisciplinadas, caçamos apogeus, desprezamos a simplicidade. Escalamos Pirineus e calibramos os pneus todo dia, por causa do desgaste. À noite, a exaustão corre pra gente e alguma coisa nos diz que é cada vez mais urgente aprender a descansar.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

de trivela

Amor, companheirismo, ternura
Tudo que de mais sutil a alma revela
A melhor resposta para a melhor procura
Deve ser dada com classe, de trivela
E até repreensão e censura
Não devem ser dadas de bico
Ênfase não na doença, mas na cura
Olhar construtivo aponta sempre o abrigo

sexta-feira, 15 de maio de 2015

confissões

Confesso minha predileção pelas confissões. Não as religiosas, mas as profanas mesmo. Aquele turbilhão de palavras escorrendo da boca como hordas de torcedores depois de uma grande decisão. Curto declarações hemorrágicas, tanto pela cor apaixonada quanto pela profusão. Nada de parênteses, notas de rodapé, parágrafos organizados. É adorável o caos da espontaneidade, cais onde embarcam e desembarcam verdades escancaradas, despreocupadas com qualquer estética. Eis o paraíso da ética pura, selvagem, in natura, de cara lavada, sem maquiagem. Assuntos misturados, sem vírgulas. Destemidos como Virgulino, imponentes como violinos. Convenientemente distantes da censura dos corretores ortográficos. E sem couvert, direto ao prato principal. Dando nomes aos bois, mesmo que dê bode.

quinta-feira, 14 de maio de 2015

guinada

Talvez para mim o mundo não tivesse jeito
Talvez o súbito abismo, de tão fundo,
nem coubesse no meu peito
Talvez eu aceitasse as regras
de um jogo muito sem graça
Talvez eu até me tornasse indiferente
ao que mal chega e já passa
Talvez eu abandonasse meu time
depois de um caminhão de derrotas
Talvez eu acreditasse que as exclusões
seriam abolidas por cotas
Talvez eu renunciasse às escolhas
e escolhesse a mais silenciosa abstenção
Talvez eu anunciasse no meio da rua
que só caminharia na contramão
Talvez minha voz cedesse sua vez
àquelas que fazem tanto barulho
Talvez eu pudesse decorar tantas teorias vazias
até transformar minha mente num estranho entulho
Talvez eu me acostumasse com direitos elementares
enterrados em cova rasa
Talvez minha indignação nem se iluminasse
com tanta escuridão na faixa de Gaza
Talvez eu sentisse conforto no ceticismo
e me escondesse na solidão
Talvez eu distraísse minhas angústias
com circo e pão
Mas nada disso eu consigo,
pois uma chama misteriosa me chama dizendo: que nada!
E essa guinada permanece comigo.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

singularidades

Ao conversarem entre si, duas pessoas jamais falarão da mesma rua, cidade ou país. Ainda que o nome seja o mesmo, esta será a única coincidência. O significado de cada coisa é único e inconfundível para cada um. Isso vale para lugares, pessoas, comidas, acontecimentos e ideias. Se João fosse meu pai e patrão de Pedro, quando eu dissesse
algo a respeito dele, não estaria me referindo ao empregador de Pedro, mas ao meu pai. 
Essas variáveis tornam a vida encantadora. E nos provocam a perceber a inutilidade das tentativas de colonização do outro. Ninguém está certo ou errado quando emite uma opinião. Ela será a imagem do sentimento, da emoção, da memória que prevalecem naquele momento para aquele indivíduo. E mesmo assim tudo isso se sujeita ao princípio geral das metamorfoses individuais. Vivas às luas, às marés, às estações, aos ventos e a tudo que se perpetua por ser infinitamente diferente.
Adaptando a citação bíblica: diga-me que andas e dir-te-ei que és.

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Leia

A siderúrgica intolerância contra o que se considera reprovável no outro revela um angustiante repúdio pelo que há de pior em si mesmo. Esconde-se o lixo, o tapete e exibe-se o prolixo topete para vomitar lições moralistas. E a lista de torpezas é longa. Ataca-se o que causa temor. A prática de injustiças com as próprias mãos, os linchamentos sumários das diversidades, o enforcamento da liberdade, o fuzilamento do perdão.
Erros podem ser superados, redimidos. Mas como corrigir o erro de ceifar uma vida? A pena de morte é, sim, medieval, jurássica, brutal, lastimável.
Simboliza a obscuridade humana, a supremacia do obscuro desejo de vingança. Nem mesmo o mero assassinato da pena de morte conduzirá à evolução humana. Ela é só um sintoma. Precisamos descobrir vacinas contra a indiferença, o desamor, o analfabetismo espiritual. Até hoje, mulheres são apedrejadas ou mutiladas genitalmente. A escravidão não
foi abolida, apenas ganhou novas embalagens. Professores são agredidos, moradores de rua incendiados, no mínimo, pelo fogo da eugenia. A indignação popular é sufocada com spray de pimenta. Mas pimenta nos olhos dos outros é refresco para quem pratica atos de onanismo com o sofrimento alheio. E nenhum de nós deve ficar alheio à angústia alheia. Diante de qualquer atrocidade, não feche seus olhos. Entenda que há uma mensagem urgente nos olhos de quem padece. Leia.

quarta-feira, 29 de abril de 2015

provocações

Provocações. Provas nada cabais. Bacanais de ideias saltitantes. Aquilo que vem com a vida e o que chega antes. Hoje aconteceu um desmaio. Logo eu que nasci em maio, logo eu tinha que desmaiar? Desfiz o que ainda será feito, de um jeito estranho que não era meu jeito. Joelhos em forma de cunha, tão assimétricos que me fazem crer que joelho é só uma alcunha. A vida da gente é uma tourada esquisita, em que somos pegos à unha. Por quem nem sabemos. E, no meu caso particular, o touro sou eu. E o toureiro, quem será? Quase plantei bananeira. Compus um poema sem eira nem beira. Quando nos desarrumamos, amamos qualquer besteira.
p.s.: homenagem simplória ao pensador Antônio Abujamra, que partiu deixando conosco seus pensamentos provocativos.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

rótulas

Que venham os audazes, os inconformados, os que se colocam à margem dos trilhos chatos e previsíveis. Louvemos a imprevisibilidade da arte, a alternância da Natureza, a sagacidade da irreverência, que enlutam a repetitividade estéril. Fundemos a matemática inexata, a gramática da espontaneidade, a legislação libertária, a filosofia da loucura construtiva. Pontes no lugar de muros, abraços ao invés de murros. Menos rótulos e muito mais rótulas, ensejadoras de luz e ar.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

pactos e cactus



Os relacionamentos humanos são mantidos por meio de pactos, explícitos ou tácitos. Os acordos mantêm as relações acordadas,
hidratadas. Mas elas (as relações) não resistem aos desertos e em meio às tempestades de areia podem sucumbir. É recomendável, portanto, evitar ou ao menos tentar evitar que os pactos transformem-se em cactus.

maçãs e caquis

Fugir ou fingir? Se for esta a encruzilhada, creio que não restará mais nada. Fingir é fugir da verdade, é nadar em seco, é sair da raia, pular a cerca e morrer bem longe da praia.
Melhor será rugir, fustigar a indigência moral. rosnar para o cinismo, mostrar os dentes para as serpentes, persuadi-las de que existem tentações bem melhores do que maçãs envenenadas.
Ora, ora, haverá conserto para o que fratura a estética da alma?
O paraíso é aqui e, cá entre nós, prefiro maçãs a caquis.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

a pera

Eu trocaria a eternidade por uma pera. Uma pera no lugar de toda a espera.
Desde que eu pudesse prová-la e prová-la e prová-la sem acabar com ela. 
Que a pera fosse minha semente, para que ela se reproduzisse em mim,
como um eco bom. Um beco que se alargasse, transformando-se num mundo
sem tamanho. Afinal, o meu próprio lugar, onde eu não me encolha e me colha,
como a pera. Eu tocaria na eternidade e então só restaria a paz e a pera, no lugar 
de toda a áspera espera.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

distâncias

O que faz um barco no meio do deserto?
Se não compreender as distâncias, melhor nem chegar perto.

coisas e pessoas

Se falássemos a mesma língua
Se houvesse em nós o mesmo paladar
Se a paz coletiva não estivesse à míngua
Se tivéssemos o mesmo para dar

Se a nossa natureza fosse mais natural
Se chamássemos a autenticidade de beleza
Se dividíssemos melhor as riquezas: que tal?
Se valorizássemos mais a dúvida que a certeza
Se déssemos um pouco de descanso ao celular
Se nos déssemos as mãos, ao invés de algemas
Se perdêssemos o imenso medo de amar
Não mudaria muita coisa. As pessoas, apenas.

segunda-feira, 13 de abril de 2015

as marés

"O mundo está dividido entre os indignos e os indignados". Eduardo Galeano

Antes de mais nada, eu me indigno com minhas indignidades. Quase sempre íntimas, mas sempre minhas. Não sei se derrotarei todas, sei que elas não me vencerão. Pois não me convencem. Meus edifícios foram construídos com material de demolição. Como é difícil sobreviver à poeira dos percalços, caminhar sobre pedras com os pés descalços! Das feridas cicatrizadas vem o calo, mas elas ainda estão ali. Se ele ficar muito alto, eu o escalo, mas ele ainda estará acima de mim. De sobreaviso, alertando-me para os perigos das marés.

Cara Clarice

Criancice, meninice, adultice, mágica Clarice.
Mas quem disse que a magia é crendice?

o que queremos?

Queremos remos para vencer nossas próprias correntezas
Queremos rumos que nos conduzam a fugazes certezas
Queremos Neros que incendeiem nossas ruínas
Queremos renas para guiar nossas retinas
Queremos rimas para enfeitiçar as rotinas
Queremos cabeças para atiçar guilhotinas
Queremos liberdade para decidir quem merece tê-la
Queremos luz a mercúrio para uns e para os demais vela
Queremos colecionar vantagens indivisíveis
Queremos que nossos defeitos sejam invisíveis
Queremos erradicar tudo que nos incomoda
Queremos que nossos caprichos estejam sempre na moda
Queremos um mar, para naufragar o tédio
Queremos o mal, para descobrir o remédio
Queremos matar a morte e morremos de medo da eternidade
Queremos, queremos, queremos...mas o que queremos de verdade?

domingo, 12 de abril de 2015

Procura-se talento

Procura-se talento! 
Em diversas áreas da atuação humana, o marketing assume ares de vedete. As grandes atrações estão mais nos cartazes, nas redes sociais do que nos palcos. Talvez não seja mais necessário ser bom para ser famoso. A importância de alguém passou a ser mensurada por outros critérios. O grande negócio é fazer dinheiro, é faturar. Quanto às plateias, crentes ou ateias, entoam seus mantras, seus gritos de guerra, em busca
da paz. Treinar, ensaiar, verter suor, repetir para ser original? Isso é ritual de poucos. E, aos poucos, nos habituamos com a indigência de brilho, com a escassez de genialidade. Há mais geniosos que geniais. Mais gananciosos, mais ansiosos e menos essenciais. Sentimos falta do camisa 10, do nota 10, do destaque que vá além de um carro alegórico.
Que saudade daqueles que não atravessavam o samba, daquela gente bamba, que se equilibrava nas cordas de mesmo adjetivo, com o único objetivo de fazer o povo mais feliz.

terça-feira, 7 de abril de 2015

encontros e encontrões

Tornou-se uma raridade encontrar alguém, sem a presença desconfortável de uma barreira. Por vezes, a muralha é visível: o celular, o relógio, as coisas ditas inadiáveis, os compromissos que atingem como mísseis o desejo de permanecer. Noutras, a distância é intangível, indecifrável: frases sem sentido, olhares de curtíssima duração, gestos obsoletos, perguntas decoradas que prescindem de respostas, clichês nada chiques.
Quero a volta dos longos abraços, dos papos atemporais, das lágrimas de alegria ou de tristeza, compartilhadas por alguém que nos quer bem, que nos entende sem decifrar. Reivindico a moratória da ingenuidade perdida precocemente, a extinção das partidas sem a contrapartida das chegadas, o fim da terceirização do afeto, do cuidado, do aconchego.
Como disse Benjamin Disraeli, a vida é muito curta para ser pequena.

o que me deste

O que me deste, destino?
A possibilidade de crescer, crescer, até voltar a ser menino
O que me deste, destino?
Dez motivos para prosseguir, sem saber o caminho
O que deste, destino?
A sensação de ser carioca, paulista, mineiro, gaúcho e nordestino
O que me deste, destino?
O sabor da eternidade e do eterno repentino
O que me deste, destino?
O amor à liberdade e o conforto uterino
O que me deste, destino?
A capacidade de desfazer nós, fazendo tanto desatino
O que me deste, destino?
Um instrumento que ainda não domino e mesmo assim afino

sexta-feira, 3 de abril de 2015

premonição

Estou convencido: há vida antes da morte!

quarta-feira, 1 de abril de 2015

primeiro de abril

No dia da mentira, quero trazer à baila o balé de inverdades que dançamos não raramente. Pessoas que não tremem, que não temem, que têm na ponta de suas línguas respostas perfeitas. As que não titubeiam, não bobeiam, não se contradizem. Eca! Venham a mim os
indecisos, os tementes, os que têm na língua o paladar da dúvida e nos dedos o tato da imperfeição. 
A mentira possui diversos heterônimos: tabus, mitos, fofocas, boatos. Ainda que neles repouse um grama de verdade, será somente ardil para melhor iludir. O sofisma é a obra prima do enganador, do maquiador de farsas.
O dia da mentira não a homenageia, remete-nos à lembrança de golpes duros na vida, na liberdade, no direito de ir e vir das utopias. Não censuro a mentira, por deplorar a censura. Simplesmente, não lhe dou audiência.

terça-feira, 31 de março de 2015

ponto, parágrafo

"Água nova rolando e a gente se amando sem parar". A vida que conhecemos (talvez haja outras) é muito bem retratada no verso do Chico. O rio que vemos não veremos mais. Para que tentar mumificar o que já se foi? O desapego é fundamental para que o novo aconteça,
dentro e fora da gente. A tecla F5 é ferramenta imprescindível a todos nós. Ponto, parágrafo! No mínimo, em alguns casos é melhor comprar outro caderno, criar uma pasta, fechar todas as abas, senão a saúde (bem-estar físico, emocional e espiritual) desaba. Diante de uma finitude, enlute-se, mas permita que o luto também morra. A sociedade em que estamos inseridos valoriza o sucesso, a performance, a exatidão. Podemos e devemos reagir e para isso percebamos que o paraíso é a inexatidão, a imprevisibilidade, a aceitação de que errar é bastante provável. A paz interior é o maior indicativo de sucesso e está muito mais em acariciar-se, a despeito da escassez, do que em saciar-se, a despeito do que se fez.

domingo, 29 de março de 2015

maçãs

Raul disse que quem gosta de maçã irá gostar de todas, porque todas são iguais. Mas a maçã não é só o que parece, é muito mais. Se duas pessoas ou se duas mil observarem a mesma maçã, daí resultarão mais de dois ou quase dois mil desejos diferentes. Sem contar os que serão indiferentes. Todas as coisas são elas e o que delas se deduz. Talvez por isso o que arrefece é também o que seduz.

domingo, 22 de março de 2015

fome de bandolins

Tropeçamos em tantos destroços que, por um momento, tememos que esse troço feio não tenha fim. A fome de poder poda coisas preciosas, mas não sacia a fome de beleza, nem a sede de paz. Mas como é que a gente faz?
É aí que eu peço à verdade faminta: não minta, por maior que seja a vontade. Por mais que também tropecemos, peçamos à nossa tropa de virtudes que perdoe a nós, que pecamos, para que não nos percamos do nosso bando de luzes e bandolins.

quinta-feira, 19 de março de 2015

crise

O que está no fundo de toda crise é a miséria humana. Uma espécie de miséria que acomete pessoas de todas as classes sociais. Sem encontrar o sentido da vida, busca-se desesperadamente um subterfúgio, um paliativo para o tédio de tudo e a ansiedade sem tamanho. Seguindo a cartilha capitalista, consome-se desordenadamente o que está ao seu alcance. E o consumismo é vício, que gera dependência, que gera mais ansiedade e mais tédio e mais vazios tão impreenchíveis quanto insuportáveis. A insatisfação crônica causa erosões profundas na autoestima. E esse estado de intolerância a si mesmo é alarmante. Quando o indivíduo não se ama, como poderá amar alguém? E se ele desiste de mudar, como poderá promover mudanças?

segunda-feira, 16 de março de 2015

onde está a inocência?

Onde está a inocência? Em meio ao tiroteio, pode estar perdida como as balas que buscam alvos fáceis. Os problemas são bem mais profundos que as supostas soluções, que cabem num pedaço de papel e no grito rouco de um cidadão louco de raiva. Legítimas a raiva e a loucura, bem como a rouquidão daqueles que não se sentem ouvidos. Mas solução,
repito, é bem mais que um grande soluço. O Brasil chora, por padecer de credibilidade, por parecer uma nau desgovernada (se não o for), sacudida por ondas gigantescas de lama. A alma da nação foi tão abalada, que as letras misturaram-se, formando outra palavra. De quem é a lavra de tanta safadeza, de todo o cinismo que circula por corredores e gabinetes? A resposta provavelmente não virá. O importante, o crucial é a esperança de que o povo não virará as costas para a História que só ele pode escrever. Mas sem trocar seis por meia dúzia, pois o que tem valor nesta vida não tem preço e a gente precisa aprender a preservar.
Onde está a inocência? Certamente, longe de quem avança sinais de trânsito, trafega pelo acostamento, joga lixo pelas janelas dos carros, mija nas ruas, fura filas, coleciona mentiras de todos os tamanhos, desrespeita o outro com o volume da música, comemora a vitória do seu clube com gol irregular, cultiva preconceitos, desaprende a ser gentil, esquece de amar..

quarta-feira, 11 de março de 2015

metal precioso

Sax é o único metal que me fascina

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Whiplash

Cem por cento!!
A meta? Nada disso, apenas o começo de um caminho longo e dolorido.
101, 102, 103...suor, lágrimas, excelência, cada qual na sua vez.
Bom trabalho é expressão proibida, elogio que arrefece.
Todo virtuoso tem as cicatrizes que merece.
104, 105...onde estão meus dedos, minhas mãos, meu orgulho, que já nem sinto.
106, 107, 108...a porta está aberta, mas só para expulsar o mais afoito.
O melhor, o diferenciado é aquele que se abastece, sem precisar ir ao mercado.
Engula seus pecados, leia os recados que lhe manda sua inconsciência.
Aprender sem desaprender, ultrapassar um a um os limites conhecidos
equivale a suportar toda penitência.
Testado mil vezes o aprendiz,
detestado um milhão de vezes o professor,
a aprovação é dada por si mesmo, como o mestre diz.
É preciso ser, mais do que sentir amor.
Penetrar nas coisas e não somente saber como elas são.
Primeiro ser perfeito e só depois buscar a perfeição.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

A arte da perda

Se a perda é arte, somos todos artistas, então. Tão perdidos, nos perdemos do que se desvencilhou da gente, com ou sem inúteis arrependimentos. Curiosamente, colecionamos essas perdas, na tentativa de não nos perdermos delas. Guardamos o que já não temos, pois tememos não nos ter. Mas o que será ter-nos, se não somos eternos? Sejamos ternos conosco, mais que a finitude o é. A finitude é infinita, a morte é imortal? Quem souber as respostas, por favor, publique-as num jornal que eu não leia. Deixem comigo as incertezas fundamentais. Não quero perdê-las. Para que ser artista o tempo inteiro? Até porque prefiro o tempo fatiado, dividido. Assim, terei uma chance de dominá-lo e dele me perder, com arte.

domingo, 8 de fevereiro de 2015

conversas afiadas

Interditemos as conversas fiadas. Brotem as conversas afiadas, dessas que atingem a jugular da questão. Botemos nossos botes para navegar nas tormentas de ideias sem tempo, sem idade nem vaidade. Ideias de verdade. Inteiras, como tudo que está no nosso meio. Fiquemos de tocaia, para dar o bote em almas que, avisadas do perigo, fogem de todo e qualquer abrigo. 
Quero me expor, subir e descer escadas num salto, sem sobressalto. Banir o salto alto de olhares, de posturas impostoras. Arrancar os botões da ousadia, para que ela sinta como é gostoso livrar-se do cinto e de tudo que aperta, oprime, sufoca, estreita.
Sinto que a hora é essa, que pode e será bom à beça. E não há nada, mas nada mesmo que impeça.
Feijão com arroz só se o tempero for destemperado, como sou. Que me importa o que dá certo, se essa certeza jamais me elevou? Talvez não saiba por onde vou, mas sei que não será em vão. E aqueles que se escandalizam com o que não acham são, talvez descubram um dia que, depois de toda a escalada, finalmente alcançaram o chão.

idiotices charmosas

Todos querem. Ou melhor, parecem querer. Ou pior, querem parecer.
Que todos errem, por ser da espécie, mas que se ferrem as idiotices
horrorosas. Já que parecem inevitáveis, pratiquemos idiotices charmosas.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Vida e amor

No começo era o verbo (viver). Mas a espera e o encontro com o amor é que justificam e dão sentido à vida. A vida é só um veículo. O amor é a estrada, o caminho e a chegada. Se não houver amor, nem se pode afirmar que há vida. A carência é ávida, porém o amor é mais que a vida.
E mais: a existência do amor, sua afirmação cotidiana não são sinônimos de namoro, de algo que se pratica a dois. O enamoramento pode ou não conduzir ao amor. Este é muito mais que troca de carícias, muito mais que jogo de sedução, que troca de presentes em datas festivas. O amor é o presente em si, a mais extraordinária festa que ocorre em cada um de nós. E ele é um fenômeno pessoal, intransferível. É nesse sentido que podemos afirmar que não "amamos alguém" e sim "amamos com alguém". Aquele amor estava em você antes e prosseguirá em você depois, ainda que o romance se desfaça.
Por isso, faça as pazes consigo mesmo, acaricie-se, apaixone-se pelo ser inconfundível que você é. Mesmo quando se confunda amor com tesão, estar a sós com solidão. Creia: é impossível ser sozinho feliz. Ou seja, descobrindo e desenvolvendo toda a potencialidade do amor natural que se encontra em você, a felicidade será sua companheira. Sorrirá com e para você, acordará e dormirá em seus braços. Com quem compartilhar esse tesouro? Apenas com quem compreender que ele vale muito mais que ouro e que ninguém poderá jamais tirá-lo de você.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

cafuné

Nesta sociedade do espetáculo,
parecer ser vale mais que ser o que se é
A aparência é nada mais que um tentáculo
que aperta e sufoca, sem fazer sequer um cafuné

amor e saudade

Dizem que a palavra saudade só existe no nosso idioma. Mas pessoas de qualquer ponto do planeta, certamente, podem senti-la. Portanto, sentem, mas não podem expressar o sentimento, em uma só palavra. Saudade é a presença da ausência, é, muitas vezes, antevisão do porvir, presságio bom, é o barco partindo, avião decolando, carta ou e-mail que se espera, telefone que ainda não tocou, dia, hora, minuto e segundo certos para o grande momento, gestado não no ventre, apenas, mas no corpo e na alma, aflitos, sedentos. Saudade é final de algo, que logo recomeçará, é o nada repentino, que se materializará, é domingo que leva o sábado, é dezembro que engole o ano, é o dia que esconde a noite, é tudo que se despede, com a promessa de reaparecer, seja lá como for.
Amor é esquecer o tempo, é, parado, percorrer as avenidas do pensamento, é perder as contas, é fazer de conta que não há mais nada a fazer, senão...amar. Amor é o Sol se pondo, é o dia nascendo, é o céu chovendo verdades infinitas, azuis, estelares, universais. Amor é aos pares - aos milhares, aos milhões, iluminando os porões, libertando os sonhos, enfeitando os corações.
Amor á atributo dos deuses e de todos que, simplesmente, ousam amar.
Amar e sentir saudade é beber a água mais pura e refrescante, é sentir sede e daquela água lembrar...e precisar...e beber...sem jamais se saciar.

falta e desejo

Falta de água, de luz, de ar puro
Falta de vergonha na cara e de um mundo seguro
Muita estética e rara ética
Farra com dinheiro público cada vez mais eclética
Pouco conhecimento e pouco salário
Fortunas escondidas dentro do armário
Ódios disseminados em nome da religião
Árvores voando e aviões caindo no chão
Mas se é na falta que o desejo acontece
Desejemos bem forte para que nasça a vida que a gente merece.