sexta-feira, 21 de julho de 2017

Pensando em pensamentos

Por que pensamos como pensamos?
Por que pensamos o que pensamos?
Por que pensamos?
Para gritar em silêncio, silenciar os gritos, preparar o bote, saltar dele...
O pensamento não está necessariamente associado à atitude. O pensamento é fruto da imaginação, da imagem que se projeta na ação. Cultura, exemplos, traumas, crenças. Feridas abertas (sofrimentos) causam dores. Feridas fechadas (cicatrizes), também. 
Nada é por acaso. Simpatias, ojerizas, identificações e repulsas possuem raízes profundas, simbólicas. Nominadas ou inominadas por almas mimadas ou abandonadas.

A olho nu

Artista é preso em Brasília por ficar nu em performance.
Lamentável distorção da arte que há no corpo. 
Triste restrição à liberdade, que deveria caminhar por toda parte. 
Não há crime na nudez. 
Criminosas são a hipocrisia e a desfaçatez.
Desde quando os criminosos em Brasília andam nus?

Quando

Quando faltam palavras, enlouqueço. 
Quando sobram palavras, enrouqueço. 
Quando faltam sobras, esqueço.
Quando sobram faltas, eu me aqueço.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Anacronismo

O tempo é um sujeito irônico, matreiro, sempre com muitas artimanhas no bolso. Ele vem chegando, aos poucos, tomando conta da situação. Dá as caras e mexe com as nossas, construindo curvas onde havia retas. Transforma certezas adolescentes em dúvidas idosas, desmancha caprichos, nocauteia tolices, apaga retrovisores e acende luzes de alerta.
Talvez haja coisas atemporais. Talvez. Só que os temporais acontecem, notadamente para quem não possui guarda-chuva. Eu não usei guarda-chuva por muito tempo. Nem por isso fiquei molhado em demasia. Marquises foram tão úteis para mim quanto para moradores de rua crônicos.
Mas o que chama minhas palavras agora é o anacronismo. Confesso que me sinto tomado por ele. Quem sabe irreversivelmente. Acreditem ou não, ainda olho para a Lua, desejo bom dia a quem nunca vi antes, agradeço por aquilo que alguns consideram obrigação e, o mais grave, sou romântico, sem ser piegas (será?). Torço pelos índios, contra a cavalaria, pelos fracos e oprimidos (e isso não se restringe às telas de cinema). Não risquei do dicionário palavras como ética, imparcialidade, compaixão, companheirismo, amor.
Acham que para por aí? Não frequento os templos do deus mercado, desprezo roupas de marca, não babo diante de vitrines, não troco de carro antes de trocar os pneus, não sou ateu nem neoliberal. Não torço pelo Flamengo e minha nega não se chama Teresa.
Ufa! O tom confessional era inevitável. Sinto-me razoavelmente aturdido com a constatação de que me tornei, sem perceber, um dinossauro. Nado contra a correnteza, enfrentando as marés, sem lenço e sem documentos. Mas pasmem: sem perder minha identidade. Sou o que sou, o que soa em mim, deixando que o suor leve para fora e longe o que não rima nem rema comigo.

terça-feira, 9 de maio de 2017

Panela de expressão

Preparo meus versos crus e destemperados na panela de expressão.

Até onde?

Gente, até onde vai o amor?
Até onde a gente vaia o amor.

Entre o azul e o vermelho

Cismo em viver diferente das ostras,sem ostracismo. Aliás, é lilás e sísmico o meu viver, pois há tremores, tambores e amores que sacodem todas as perspectivas em que acredito. Entre o azul e o vermelho, diante e atrás do espelho, eu jamais me repito.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Gente

Gente, é urgente! 
Deixar rolar, fluir, sem deter gente. 
Gente, é urgente!
Desenrolar, influir, sem fugir do que urge na mente.
Gente, é urgente!
Soltar os gritos, para não ficar só...nos ritos de sempre.
Gente, é urgente!
Sair dos trilhos e descobrir trilhas, milhas e milhas, muito mais que migalhas somente.

Freud e Marx

Mais Freud e menos Marx.
Mas, nem por isso, marque-se...

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Onde já se "vil"?

Estremeço diante da instabilidade contemporânea. 
Crises sistêmicas abalam os alicerces da economia, da política, da fé na vida, da confiabilidade em instituições e intuições.
Lunáticos (nenhuma referência à Lua) aplaudem incendiários ensandecidos.
Falsos ingênuos justificam os desmandos e mazelas, ao entendimento de que "é assim mesmo, sempre foi assim".
Ora, ora!
Aderir ao discurso (e prática) de indivíduos patologizados, portadores de dores que não revelam, que não suportam é abrir as portas ao caos da intolerância, desamor.
Combater a violência com violência?
Isso não resiste à análise perfunctória de um primeiro-anista de Psicologia ou Filosofia. Perdoe-os, Gandhi ("olho por olho e o mundo acabará cego"), eles não sabem o que dizem.
Quanto ao determinismo das coisas, sinto muito, mas isso tem o péssimo hálito da "identificação sorrateira", espécie de investimento tenebroso e pernicioso na eternização das iniquidades.
Só beneficiários contumazes ou candidatos a tal passariam a mão na cabeça dos que perdem a cabeça diante do vil metal.

Emblemas

Cuidado com seus problemas. Eles podem ser tão sedutores que se tornam emblemas.

Sim, plural

Após tantas e vãs tentativas de ser singular, compreendeu que a vida é plural...

A grande família

Conceituo família de maneira bem peculiar. Afasto-me dos ditames genéticos, deixo de lado a consanguinidade, priorizando a afetividade. Minha família é formada por aqueles(as) que tocam meu coração. O parentesco, muitas vezes, é clamorosamente insuficiente para gerar algo que se assemelhe ao amor. A ideia de família, ao meu sentir, aponta para o que de mais natural e precioso existe em nós - a carícia essencial do gostar. O que ultrapassa, e muito, as fronteiras do conceito tradicional de família. Caetano Veloso fez a síntese: "quando a gente gosta é claro que a gente cuida" . E isso diz respeito a pais, mães, filhos, irmãos, amigos. Todos, enfim, de quem ousamos gostar.

Ocas e focas

O pensamento imediatista agarra-se ao metabólico e quer que o metafórico se dane. Pragmáticos preocupam-se com suas ocas, pouco se importando com as focas.

sábado, 18 de março de 2017

Enigmas

Penso nas pessoas que não conheço. Estradas em que não cheguei e de onde não parti. Instrumentos cujos sons me escaparam. Enigmas que sequer pude tentar decifrar. Rostos,
restos de sonhos, rastros de desejos e desventuras. Dores e ardores quase invisíveis. Quase, pois nossas biografias estão tatuadas, sem tinta, em nossos corpos.
Penso nas estrelas que meus olhos não tocaram, nas ruas, florestas, rios, oceanos, montanhas que, para mim, inexistem.
Meu universo é tão pequeno, mas nele cabem tantas coisas.
Até as que nunca vi.

quinta-feira, 16 de março de 2017

C(alma)

Preocupam-se com a desigualdade e injustiça somente os que as sentem na própria pele e/ou na alma.
Os demais, arrepiam-se com a simples ideia de mudanças e tentam arrefecer os que têm pressa, dizendo-lhes: calma, calma!

domingo, 19 de fevereiro de 2017

"Eu não sou seu negro"

O esplêndido documentário "Eu não sou seu negro" foi feito para negros e não negros. 
Mira no coração e na consciência de todos que se negam a aceitar atitudes parvas, que derramaram e ainda derramam a lama vergonhosa da discriminação em razão da cor da pele. 
A narrativa (nada entediante) apresenta e leva adiante as reflexões mais agudas acerca do racismo. A desigualdade de oportunidades, o ódio cego e canhestro, a violência absurda e deplorável praticada por mentes doentias, que perderam o trem da História e desembarcaram na estação das trevas e da indigência emocional.
Ao final da sessão, compreendi que levantar e ir embora seria injusto e incompatível com o que a telona mostrara. Bati palmas, entusiasmadamente. E o gesto foi repetido por quase todos que lá estavam. Uma luz brilhou no escuro da sala.
Homenagem singela aos que dedicaram a vida (e a morte) à causa dos Direitos Humanos!!

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Mais nada

Desde que nasci, insistiram que eu deveria ser isso ou aquilo. 
Militar, jogador de futebol. Desde o princípio e por princípios,
divergi.
Fazia questão de mudar a qualquer instante. Tudo dependia 
apenas dos meus instintos. E eles tinham a voz dos trovões,
a pele das nuvens, voavam como águias e repousavam como
os oceanos.
Decorei minha cabeça com cabelos indisciplinados, à imagem
dos meus pensamentos, tão fantasiosos quanto as realidades
que me ofereciam, em vão.
Corri, sem aprender. Perdi, antes de encontrar. Não cedi, pois
já era tarde. Ardi, crepitei, incendiei meu olhar. Essa era a
chama que me guiava. Mais nada!

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Virtude e pecado

Vida, afinal o que é ela?
É o que está atrás e também à frente da porta e da janela.
Vida é desde o começo e, pelo menos, até o final.
É tudo que faz bem e passa longe do banal.
Vida não é o contrário da morte.
Pois ela é leste, oeste, sul e ainda nos dá o norte.
Vida não é coleção de feridas e cicatrizes.
Ela está nas ruas, avenidas, becos, nas celebrações e até nas crises.
Vida não é supermercado, onde se enche o carrinho.
Vida é virtude e mesmo pecado, desde que haja carinho.

domingo, 15 de janeiro de 2017

Antes do depois

Se os ponteiros do relógio, de uma hora para a outra, trafegassem no sentido anti-horário, o que seria de mim? 
Uma palavra presa no dicionário, temendo mais o começo do que o fim.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Farpas e harpas

Muito cuidado com os enfarpelados.
Eles soltam farpas e jamais tocarão harpas.
Cuidem muito dos destroçados.
Eles não são troços e possuem almas, 
mesmo que sobressaiam os ossos.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Etiquetas

Consumamos, mais e mais. Já que não amamos, para que pecados veniais? Consumamos, por humanos que somos. Até pelo receio de sumirmos, quando nada compramos. Cada um vale pelo muito que tem a exibir. A os(tentação) tornou-se a única medida aceita no mercado, digo, mundo. A singular moeda de troca. Trocamos todas as coisas que acumulamos. E o cúmulo: permutamos inclusive o
que não é coisa. Sintoma de que coisificamos sentimentos e, claro, pessoas. Colemos, de uma vez, etiquetas em testas. Há quem diga, assegure, que tudo e todos têm preço. 
Quem ousar discordar, que se segure. 
Dos demais, simplesmente me despeço.