segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

saudade sem pressa

A saudade intransitiva
Que em transes se expressa
Atemporal, permissiva
Quase distraída, uma saudade sem pressa

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

o toque

Público e privado parecem estar emaranhados como nunca. Estão escancaradas as fronteiras da privacidade, abertas à visitação pública.
Escandalizamos aquilo que deveria permanecer íntimo. Talvez por nos intimidarmos com os efeitos colaterais dos sentimentos e ressentimentos reprimidos. Mas publicizar o que é pessoal não equivaleria a jogar na privada o que poderia ser reciclado? Por outro lado, vivemos a era da obsolescência, em que os prazos de validade invalidam a longevidade de tudo. Com tantas mortes anunciadas (de coisas, relacionamentos...), corremos o risco de banalizar todas as finitudes e, mais que isso, de antecipá-las. Para que algo seja infinito enquanto dure, como escreveu o poeta Vinícius de Moraes, é necessário que esse algo realmente dure.
Paralelas só se encontram no infinito. Mas estamos falando de convergências, de linhas que se tocam. E tocar-se não significa colidir e sim coincidir. Quem aprende a tocar alguém descobre o som mais lindo do universo!

terça-feira, 25 de novembro de 2014

a periferia da emoção

Alguém disse que o amor tem razões que a própria razão desconhece. Desconheço a autoria da frase e as razões que teve para escrevê-la.
O amor sempre tem razão, desde que seja amor. O busílis da questão
é que o conceito de amor está em questão. Dizemos amar por inúmeras circunstâncias, repetidas e defendidas em todas as instâncias existenciais. Ama-se em decorrência da falta, do sono que voa baixo em noite alta. Ama-se em fatias, pois assim fizeram nossas tias. Ama-se sazonalmente e aí mesmo que tudo vira uma zona, inclusive na mente.
Ama-se por necessidade de acreditar que se está amando. Ama-se a mando da razão e a despeito do coração. Ama-se demais até quando e cada vez menos, à medida em que o tempo vai coando a essência, a excelência daquele sentimento. Ama-se na condicional, ou seja, ama se...Amor de tiro curto, 100 metros rasos, bem rasos. Que não resiste às lonjuras, que se restringe às juras e aos juros que se cobra de um investimento tão capital, que de repente se dobra feito uma esquina. É quando o amor esquiva-se e se muda para a periferia da emoção.
A vida tem amores que o próprio amor desconhece. A vida tem muitos clamores, que muitas vezes a gente ouve, mas esquece. Por isso, perguntamos, com duvidosa inocência: o que houve?
Amor é substantivamente adjetivo. Amar é verbo que pode e deve ser conjugado em e por todas as pessoas. Para que soe bem, para que faça bem. É no colo da pluralidade que ele se torna magicamente singular

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

três asteriscos

Se enjoou, varia
Se o conhecimento calou, chuta
Se quer saber o valor, avalia
Se as palavras cansaram, escuta
Se ele não merece, chuta
Se é inevitável errar, varia
Se quer ser ouvida, escuta
Se houver três asteriscos, avalia

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

sujeito determinado

Gosto de sujeitos que não se sujeitam.

domingo, 16 de novembro de 2014

surto

Para chegar à tal da felicidade,
não adianta virar à esquerda, muito menos à direita. 
Esse caminho nem sempre está numa avenida, 
por vezes trata-se de uma rua estreita. 
Não é longo nem curto.
Por isso muitos desistem de encontrá-lo
e são achados por um surto.

sábado, 15 de novembro de 2014

tat(ame)

Ame e dê vexame. Se não estiver sendo ouvido, chame. Reacenda a chama mas, acima de tudo, ame. Descubra o âmago, seja o mago do seu próprio amor. 
Ame e não reclame além da medida. Apenas a alma não deve ser comedida. Faça comédia, fique acima da média, abra mão da contramão subentendida. 
Ame sem exame. Nada de testes, por mais que detestes a ideia da intuição. Lembre-se de que mentiras são enxames de erosões famintas. Portanto, não mintas, pois as pernas serão curtas para atravessar tamanho abismo.
Ame como num tatame. Deite, role e produza imensa prole de motivos para que a festa não sinta a menor vontade de acabar.