quarta-feira, 7 de agosto de 2013

mar e anjos

As maiores alegrias que tive não foram obras de marmanjos.
Vieram trazidas pelos ventos do mar ou pelas mãos de anjos.
Nenhum triunfo mais significativo resultou de táticas cerebrais.
Mas de muito tato da alma e intuições pontuais.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

calma lá !

Se o namoro já dura alguns anos, lá vem a pergunta:
"quando será o casório?"
Poucos meses após o casamento, explodem as cobranças:
"quando virá o neném?"
Após a separação, os amigos comentam:
"poxa, separou-se há tão pouco tempo e já está namorando?"

O que explica esse comportamento social?
Afinal, nem todos os namorantes resolvem casar-se, nem todos os casais
decidem ter filhos, nem todos os sep
arados cultivam o luto por muito tempo.

Que tal torcer, apenas, pela felicidade das pessoas, sem projetar sobre elas
nossas próprias expectativas, nossos próprios carmas, nossos próprios lutos?

a fresta e a festa

Meu corpo é uma fresta,
por onde minha alma passa
e faz a festa!!

domingo, 4 de agosto de 2013

o que você faria?

O que você faria se não tivesse medo?
Jogaria muitas coisas fora,
sairia de dentro de você
ou chegaria em casa mais cedo?

O que você faria se não tivesse medo?
Dormiria na praia,
treparia no telhado
ou não fugiria da raia?

espaço

Em meu coração, não cabem amor e ressentimentos
Por uma questão de espaço, 
só fica o amor em todos os aposentos

telepatia

O que de mais gostoso a gente recebe
é aquilo que só a imaginação pede 
e alguém que a sabe ler percebe

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Hannah Arendt

Hannah sabia o que dizia. Judia, não judiava do pensamento aberto, escancarado, indomável. Hannah filosofava com os pés no chão (de estrelas).
Brilhava sem constrangimentos, livre de falsos pudores. Hannah trazia na alma
diversos odores: dos horrores da guerra, das dores da exclusão, das torres subterrâneas das prisões, mas daquelas que tentam aprisionar corpos e mentes,
mediante a torturante ideologia da menos valia, da insignificância do recluso,
reduzido a algarismos, misturados à algazarra de tantos lamentos.
Uma mulher que começava e terminava do mesmo jeito, como seu nome.
Que persistia, resistia, insistia naquilo em que acreditava, que não editava suas emoções. Uma mulher que não fazia gênero e desprezava o sucesso efêmero
das opiniões convenientes, subservientes.
Seus alunos sorviam suas palavras, empapavam-se com o entusiasmo que
escorria de cada frase, iluminavam-se com o brilho incandescente daqueles olhos
sagazes, que enxergavam longe (para trás e para a frente).
Afirmava sua incapacidade de amar qualquer povo. Amava seus amigos,
que nem sempre a souberam amar, da mesma maneira incondicional e desconcertante.
Denunciou a bizarra tese do "estrito cumprimento do dever". Crimes
cometidos por "ninguém", na medida em que quase todos se eximiam de responsabilidade, em nome do "dever de lealdade". Amorfos "cumpridores de ordens", burocratas que renunciavam ao juízo moral, que abdicavam da condição humana da
racionalidade. Raquíticos carimbadores, que se agigantavam sadicamente, por detrás
de seus carimbos.
Hannah desafiou maniqueísmos, olhou para os olhos do Mal, sem chorar
nem sorrir, tampouco imaginando-se emissária do Bem.
Os dantescos carrascos de gabinete entendiam que sua participação exauria-se ao colocar os trens em movimento. O trem da História passou por cima deles.
Histórias parecidas acontecem quase todos os dias, guardadas as devidas (e indevidas) proporções.
Os trens ainda circulam... e nós não somos apenas passageiros.