segunda-feira, 10 de outubro de 2016

No telhado do mundo

Quero morar num sítio, às margens de uma metrópole.
Quero deixar a imaginação arisca, arriscar, sem dar mole.
Quero fazer piquenique no telhado do mundo, sem pagar pedágios.
Quero ejacular utopias que fecundem gratíssimos presságios.
Quero erradicar a lama fétida da desigualdade e do preconceito.
Quero viver da melhor maneira possível, ou seja, do meu jeito.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

O sentido da estrada

Acidente na estrada. Sessenta minutos, mais ou menos longos, ao longo da via. Longos demais para o ímpeto de chegar ao destino e angustiantemente breves para quem deseja detalhes do provável desatino. Sirenes, veículos trafegando pelo acostamento, levando suas ansiedades, que sacolejam bem juntinho a medos camuflados.
Alguns lamentam o que mal conseguem ver, outros exultam em constatar que nenhum parente foi vitimado. Mais que isso, celebram a própria sobrevivência, nesta insólita BR3, em que se corre e se morre, em todos os sentidos. Seja como for, a estrada prosseguirá e isso faz todo o sentido.

Quase muito

O bar quase fechado, o ar quase pesado e um homem quase sentado, com seu copo de aguardente. 
O garçom muito cansado, um guardanapo marrom muito amarrotado, com um pedaço de poema dissidente. 
O bar muito pesado, o ar quase fechado, o garçom quase sentado e o homem muito amarrotado aguardando algo ardente.

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Como são?

É preciso estar são para perceber como as coisas são.
É preciso estar louco para perceber mais um pouco!

sábado, 3 de setembro de 2016

Guardanapos

Os melhores pedaços da vida ficam guardados em pequenos pedaços de papel, em guardanapos. 
Às vezes, sem datas, atemporais. Outros, molhados por temporais de sóis e luas. A maioria, no entanto, resiste ao tempo, aos lapsos de memória, aos colapsos existenciais. Os guardanapos são frágeis, delicados, fugazes e fiéis ao que neles é tatuado. A vida também!

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Causas perdidas

"A vida é uma causa perdida". Pode ser, mas o que importa é o que ela me causa. Aliás, todas as minhas causas são perdidas: no tempo, nas consequências e inconsequências que elas continham, na incontinência de minhas paixões, que não batem continência
para o que denominam realidade. A vida é uma causa perdida, como boa parte de meus cabelos. Eles se foram, sabe-se lá para onde. Mas ficaram minhas loucuras e minha capacidade de produzir devaneios. Acumulei mais idade que bens, mais saudade que lamentos, mais rugas que rusgas. 
Sabe por que amo o verbo?
Por poder rasgá-lo e nem assim desperdiçá-lo, pois ele permanece inteiro. Assim como eu.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

A medalha e a escola

"Sou um cara normal, só filho da Dona Didi, de Pirituba. Vou pegar meu filho na escola. Isso tudo aqui, amanhã, passa."
Serginho, da seleção brasileira de vôlei, medalha de ouro nas Olimpíadas, eleito o melhor jogador da competição, em sua modalidade, disse essas palavras. 
Ou seja, disse tudo! 
Ortega y Gasset já nos advertira de que somos nós e nossas circunstâncias". Como as circunstâncias transitam em nossas
vidas apenas transitoriamente, restamos nós. Como nós transitamos pela vida apenas transitoriamente, resta a vida.
Intransitivamente!