segunda-feira, 20 de outubro de 2014

medo de que?

Vivemos uma crise de poder. Do tudo pode ao tudo poda.
Isso acontece no ambiente privado e no público. Em família, tememos dizer não aos filhos, que secretamente temem o excesso de sim, pois a saúde emocional deles depende de limites, do (pátrio) poder. Expressamos repúdio pelo autoritarismo e ao mesmo tempo clamamos pelo Estado punitivo, vigilante, entrincheirado em suas câmeras físicas e metafóricas. Soltamos a voz contra a corrupção e corrompemos nossas vozes, que calam diante de tanta iniquidade. Mal sabemos a igualdade que somos capazes de suportar, jamais sentimos o frio que só o outro (aquele de quem pouco ou nada sabemos) sente. Adultos, somos reféns das crianças que não conseguem dormir dentro de nós. Vivemos com medo de morrer de medo ou morremos de medo de viver sem medo?
Cada qual, a seu tempo, descobrirá.

domingo, 19 de outubro de 2014

terceiro turno

Política, assim como futebol e religião, são válvulas de escape para toneladas de emoções reprimidas. Catarses quase incontroláveis que se sucedem como avalanches. Palavras são proferidas e escritas como trovões ameaçadores, armas brancas que ferem todas as cores da existência. 
Se queremos um País melhor, não chegaremos ao nosso objetivo com manifestos de ódio, intolerância, excludência, preconceitos rasos. Rios assim não são navegáveis, mas podem afogar coisas preciosas, como a solidariedade, a compaixão e o desejo sincero de aprimoramento.
Posso votar num Partido sem partir para cima de quem tem opinião diferente. Podemos todos fazer diferente, fazer melhor, fazer o melhor que há em nós, o que suscitará nos outros movimento análogo.
Há pessoas de quem gosto que são flamenguistas, vascaínos, evangélicos, católicos, judeus, muçulmanos, budistas, ateus. Mas todos, sem exceção, são humanos. Ideologicamente à direita ou à esquerda, a direção preferencial e saudável é olhar o outro de frente. O que impede que nos unamos, apesar de ideologias, preferências clubísticas e convicções religiosos sutil ou substancialmente diversas, que podem partir amizades ao meio? Diversos são os caminhos que levam à harmonia, com a sabedoria e a sensibilidade que estão dentro de cada um de nós, por mais que alguns as temam tanto. Perder o medo de reencontrar a criança que fomos e somos, ter a coragem de saber-se frágil, encarar o desamparo que nos acompanha e conosco estará sempre facilitarão o enfrentamento de fantasmas que nos sussurram absurdos.
Se cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é, para que disseminar a dor, se o que insemina a vida é o amor
?

sábado, 11 de outubro de 2014

o menino e as estrelas

Ainda bem que há um menino morando sempre no meu coração. A cada porrada, ele me estende a mão e me convida a descobrir caminhos, tão diferentes de atalhos que não conduzem a lugar nenhum. O garoto que fui e sempre serei não coloca em meus ouvidos cantos de sereias, mas me sugere que eu mergulhe para o alto, o suficiente para repousar em outros ninhos, onde não haja tantos predadores, onde não doam tantas dores. Como aceitar que qualquer sacanagem seja coisa normal? Então, não há nenhuma normalidade em mim e nem quero que haja. Devolvam-nos as estrelas que nos guiavam ou permitam que nós as guiemos para longe, muito longe de onde mora e se esconde a escuridão.

decoração

Conhecimento não é o que a gente decora, mas o que decora a gente.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

rotas

Deus me livre da perfeição, pois não sou divino. A exemplaridade causa-me arrepios. Ser modelo só para quem desfila em passarelas. Paradigmas,
receitas, cartilhas só servem para aprisionar, mutilar a originalidade. Aos impecáveis eu sugiro que se permitam pecar, ainda que sejam pequenos e deliciosos os pecados. Como seria a convivência com quem acerta todos os chutes e passes? Chutarei: só um passe de mágica conseguiria suportar toda a exaustão causada por quem é sempre "tão".
A mim, os tortos, enjeitados. Mas vivos e não quase mortos por compulsões cruéis. Desejo a proximidade dos que desejam, titubeiam, enganam-se, aprendem com os tropeços e voltam a tropeçar, ainda que em buracos distintos. A essas criaturas estendo a mão, o tapete modesto e acolhedor. E quem terá topete para julgar? O jogo é jogado e assim deve ser. Abraço as vitórias e sorrio para as derrotas. Alguns triunfos são rotos, alguns insucessos são rotas. E é por elas que se chega onde se precisa chegar.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

o bote

Eu sou metade Quixote
A outra metade aguarda meu bote
E ele virá, pode ter certeza
Para desatar todas as correntes, em meio à correnteza
Meu mote é viver distraindo a morte
Pois a vida opera milagres sem corte

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

segundo tempo

O Nordeste dilmou, São Paulo tucanou. Em quem terão votado os nordestinos radicados em Sampa? E os paulistas, teriam radicalizado no antipetismo? O mineiro Aécio perdeu em Minas Gerais, que elegeu um Governador petista. O PT perdeu acintosamente em SP, berço do Partido. O assistencialismo, encarnado pelo bolsa família, incomoda a classe média. Os desassistidos não estão na moda, mas conseguiram colocar coisas em suas bolsas, inimagináveis até pouco tempo atrás.
Marina e o PSB assustaram-se com o sucesso repentino nas pesquisas e acabaram qual serpentina, descrevendo uma parábola que baixou um pouco a bola alternativa. Para onde irá Marina, morena Marina? Olhará à direita, à esquerda, esperará o sinal ficar verde ou vermelho? Voará para os tucanos ou lavará a seco suas mãos, como boa ambientalista?
Votos não são endossáveis, como cheques. Mas ambos podem estar sem fundos.