quarta-feira, 1 de abril de 2015

primeiro de abril

No dia da mentira, quero trazer à baila o balé de inverdades que dançamos não raramente. Pessoas que não tremem, que não temem, que têm na ponta de suas línguas respostas perfeitas. As que não titubeiam, não bobeiam, não se contradizem. Eca! Venham a mim os
indecisos, os tementes, os que têm na língua o paladar da dúvida e nos dedos o tato da imperfeição. 
A mentira possui diversos heterônimos: tabus, mitos, fofocas, boatos. Ainda que neles repouse um grama de verdade, será somente ardil para melhor iludir. O sofisma é a obra prima do enganador, do maquiador de farsas.
O dia da mentira não a homenageia, remete-nos à lembrança de golpes duros na vida, na liberdade, no direito de ir e vir das utopias. Não censuro a mentira, por deplorar a censura. Simplesmente, não lhe dou audiência.

terça-feira, 31 de março de 2015

ponto, parágrafo

"Água nova rolando e a gente se amando sem parar". A vida que conhecemos (talvez haja outras) é muito bem retratada no verso do Chico. O rio que vemos não veremos mais. Para que tentar mumificar o que já se foi? O desapego é fundamental para que o novo aconteça,
dentro e fora da gente. A tecla F5 é ferramenta imprescindível a todos nós. Ponto, parágrafo! No mínimo, em alguns casos é melhor comprar outro caderno, criar uma pasta, fechar todas as abas, senão a saúde (bem-estar físico, emocional e espiritual) desaba. Diante de uma finitude, enlute-se, mas permita que o luto também morra. A sociedade em que estamos inseridos valoriza o sucesso, a performance, a exatidão. Podemos e devemos reagir e para isso percebamos que o paraíso é a inexatidão, a imprevisibilidade, a aceitação de que errar é bastante provável. A paz interior é o maior indicativo de sucesso e está muito mais em acariciar-se, a despeito da escassez, do que em saciar-se, a despeito do que se fez.

domingo, 29 de março de 2015

maçãs

Raul disse que quem gosta de maçã irá gostar de todas, porque todas são iguais. Mas a maçã não é só o que parece, é muito mais. Se duas pessoas ou se duas mil observarem a mesma maçã, daí resultarão mais de dois ou quase dois mil desejos diferentes. Sem contar os que serão indiferentes. Todas as coisas são elas e o que delas se deduz. Talvez por isso o que arrefece é também o que seduz.

domingo, 22 de março de 2015

fome de bandolins

Tropeçamos em tantos destroços que, por um momento, tememos que esse troço feio não tenha fim. A fome de poder poda coisas preciosas, mas não sacia a fome de beleza, nem a sede de paz. Mas como é que a gente faz?
É aí que eu peço à verdade faminta: não minta, por maior que seja a vontade. Por mais que também tropecemos, peçamos à nossa tropa de virtudes que perdoe a nós, que pecamos, para que não nos percamos do nosso bando de luzes e bandolins.

quinta-feira, 19 de março de 2015

crise

O que está no fundo de toda crise é a miséria humana. Uma espécie de miséria que acomete pessoas de todas as classes sociais. Sem encontrar o sentido da vida, busca-se desesperadamente um subterfúgio, um paliativo para o tédio de tudo e a ansiedade sem tamanho. Seguindo a cartilha capitalista, consome-se desordenadamente o que está ao seu alcance. E o consumismo é vício, que gera dependência, que gera mais ansiedade e mais tédio e mais vazios tão impreenchíveis quanto insuportáveis. A insatisfação crônica causa erosões profundas na autoestima. E esse estado de intolerância a si mesmo é alarmante. Quando o indivíduo não se ama, como poderá amar alguém? E se ele desiste de mudar, como poderá promover mudanças?

segunda-feira, 16 de março de 2015

onde está a inocência?

Onde está a inocência? Em meio ao tiroteio, pode estar perdida como as balas que buscam alvos fáceis. Os problemas são bem mais profundos que as supostas soluções, que cabem num pedaço de papel e no grito rouco de um cidadão louco de raiva. Legítimas a raiva e a loucura, bem como a rouquidão daqueles que não se sentem ouvidos. Mas solução,
repito, é bem mais que um grande soluço. O Brasil chora, por padecer de credibilidade, por parecer uma nau desgovernada (se não o for), sacudida por ondas gigantescas de lama. A alma da nação foi tão abalada, que as letras misturaram-se, formando outra palavra. De quem é a lavra de tanta safadeza, de todo o cinismo que circula por corredores e gabinetes? A resposta provavelmente não virá. O importante, o crucial é a esperança de que o povo não virará as costas para a História que só ele pode escrever. Mas sem trocar seis por meia dúzia, pois o que tem valor nesta vida não tem preço e a gente precisa aprender a preservar.
Onde está a inocência? Certamente, longe de quem avança sinais de trânsito, trafega pelo acostamento, joga lixo pelas janelas dos carros, mija nas ruas, fura filas, coleciona mentiras de todos os tamanhos, desrespeita o outro com o volume da música, comemora a vitória do seu clube com gol irregular, cultiva preconceitos, desaprende a ser gentil, esquece de amar..

quarta-feira, 11 de março de 2015

metal precioso

Sax é o único metal que me fascina