segunda-feira, 13 de abril de 2015

as marés

"O mundo está dividido entre os indignos e os indignados". Eduardo Galeano

Antes de mais nada, eu me indigno com minhas indignidades. Quase sempre íntimas, mas sempre minhas. Não sei se derrotarei todas, sei que elas não me vencerão. Pois não me convencem. Meus edifícios foram construídos com material de demolição. Como é difícil sobreviver à poeira dos percalços, caminhar sobre pedras com os pés descalços! Das feridas cicatrizadas vem o calo, mas elas ainda estão ali. Se ele ficar muito alto, eu o escalo, mas ele ainda estará acima de mim. De sobreaviso, alertando-me para os perigos das marés.

Cara Clarice

Criancice, meninice, adultice, mágica Clarice.
Mas quem disse que a magia é crendice?

o que queremos?

Queremos remos para vencer nossas próprias correntezas
Queremos rumos que nos conduzam a fugazes certezas
Queremos Neros que incendeiem nossas ruínas
Queremos renas para guiar nossas retinas
Queremos rimas para enfeitiçar as rotinas
Queremos cabeças para atiçar guilhotinas
Queremos liberdade para decidir quem merece tê-la
Queremos luz a mercúrio para uns e para os demais vela
Queremos colecionar vantagens indivisíveis
Queremos que nossos defeitos sejam invisíveis
Queremos erradicar tudo que nos incomoda
Queremos que nossos caprichos estejam sempre na moda
Queremos um mar, para naufragar o tédio
Queremos o mal, para descobrir o remédio
Queremos matar a morte e morremos de medo da eternidade
Queremos, queremos, queremos...mas o que queremos de verdade?

domingo, 12 de abril de 2015

Procura-se talento

Procura-se talento! 
Em diversas áreas da atuação humana, o marketing assume ares de vedete. As grandes atrações estão mais nos cartazes, nas redes sociais do que nos palcos. Talvez não seja mais necessário ser bom para ser famoso. A importância de alguém passou a ser mensurada por outros critérios. O grande negócio é fazer dinheiro, é faturar. Quanto às plateias, crentes ou ateias, entoam seus mantras, seus gritos de guerra, em busca
da paz. Treinar, ensaiar, verter suor, repetir para ser original? Isso é ritual de poucos. E, aos poucos, nos habituamos com a indigência de brilho, com a escassez de genialidade. Há mais geniosos que geniais. Mais gananciosos, mais ansiosos e menos essenciais. Sentimos falta do camisa 10, do nota 10, do destaque que vá além de um carro alegórico.
Que saudade daqueles que não atravessavam o samba, daquela gente bamba, que se equilibrava nas cordas de mesmo adjetivo, com o único objetivo de fazer o povo mais feliz.

terça-feira, 7 de abril de 2015

encontros e encontrões

Tornou-se uma raridade encontrar alguém, sem a presença desconfortável de uma barreira. Por vezes, a muralha é visível: o celular, o relógio, as coisas ditas inadiáveis, os compromissos que atingem como mísseis o desejo de permanecer. Noutras, a distância é intangível, indecifrável: frases sem sentido, olhares de curtíssima duração, gestos obsoletos, perguntas decoradas que prescindem de respostas, clichês nada chiques.
Quero a volta dos longos abraços, dos papos atemporais, das lágrimas de alegria ou de tristeza, compartilhadas por alguém que nos quer bem, que nos entende sem decifrar. Reivindico a moratória da ingenuidade perdida precocemente, a extinção das partidas sem a contrapartida das chegadas, o fim da terceirização do afeto, do cuidado, do aconchego.
Como disse Benjamin Disraeli, a vida é muito curta para ser pequena.

o que me deste

O que me deste, destino?
A possibilidade de crescer, crescer, até voltar a ser menino
O que me deste, destino?
Dez motivos para prosseguir, sem saber o caminho
O que deste, destino?
A sensação de ser carioca, paulista, mineiro, gaúcho e nordestino
O que me deste, destino?
O sabor da eternidade e do eterno repentino
O que me deste, destino?
O amor à liberdade e o conforto uterino
O que me deste, destino?
A capacidade de desfazer nós, fazendo tanto desatino
O que me deste, destino?
Um instrumento que ainda não domino e mesmo assim afino

sexta-feira, 3 de abril de 2015

premonição

Estou convencido: há vida antes da morte!