segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

bondade

Em defesa do que creio, derrubei todas as muralhas,
ocupei a tribuna e falei aos quatro cantos da cidade.
Em defesa do que creio, troquei toda a mobília,
imobilizei o que me atava.
Em defesa do que creio, toquei em cada ferida,
renunciei ao que faltava.
Em defesa do que creio, desacreditei nos bonzinhos,
mas não na bondade.


páginas suadas

Amaram sobre o livro aberto. Não havia dedicatória, bastava que fosse
lido...e foi lindo! Protagonistas foram despidos pelo suor que colava neles
e os descolava da história, sem qualquer pudor.
Amantes grudados no livro, arremessado em tantas direções,
desembarcando nomes, datas, tramas, parágrafos inteiros, inteiramente
estonteados pela imprevisível confusão de papéis.
A textura das peles roçava o contexto do romance, desorientando
diálogos, confundindo títulos, subvertendo sequências.
Pelos preenchiam espaços entre as frases, líquidos afogavam pontos
de interrogação.
Ao final da introdução, um salto para o último capítulo, quando a
sofreguidão capitulara e as páginas, transtornadas, retornaram à quietude
indesejada.




domingo, 27 de fevereiro de 2011

desobrigados

No amor, não pode haver domínio, quem obedece
não tem juízo. Se acontecer queda de braço, o que
cai é a base de sustentação do fascínio recíproco.
Competição, basta a do mercado enlouquecido, o
único preço a ser pago num romance é o ingresso
do teatro, para assistir uma peça que faça sorrir.
Mas não se pregue uma peça na espontaneidade,
na leveza, na ratificação tácita do desejo de estar
juntos, embora preservadas as indidualidades.
No teatro do amor, haverá sempre dois protagonistas.
São duas cabeças, com direito a pensar diferente,
dois corações, que pulsam cada qual do seu jeito,
em intensidade e ritmo variáveis. São quatro pernas,
que caminham aos pares e, no caso do par, acabam
encontrando-se em algum lugar, no início da noite,
o mais tardar.
Uno é o indizível sentimento, que desafia os céticos,
fazendo aquelas cabeças, corações e pernas guiarem-se
pelo mesmo código, em que consta um só artigo,
que os desobriga da solidão.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

em todos os sentidos

Quero ser amado pelo que calo,
por tudo que expresso no dialeto
do olhar, na visão do olfato, no
tato do silêncio fátuo de quem amo.

sem título

Todas as pessoas que se inscreveram em nossas vidas
deixam uma herança: o nome de um remédio contra afta,
um livro de Kafka, uma esperança.
Algumas delas são intermitentes, surgem, insurgem-se
e ressurgem, como nuvens tão familiares, mas sempre
diferentes.
Outras, são meteóricas, chovem torrencialmente e se
dissipam, ao contato de uma esquina, quase fantasmagóricas.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

há sóis

Hoje, apenas hoje,
entrega o que pedi, sem dizer
Hoje, apenas hoje,
decifra meu silêncio, quando digo
Hoje, apenas hoje,
acaricia a cicatriz que não vejo
Hoje, apenas hoje,
desenha em mim um desejo
Hoje, apenas hoje,
entra em meus poros
Hoje, apenas hoje,
perca o sono, para encontrar o sonho
Hoje, apenas hoje,
tudo mais, solenemente após
Hoje, apenas hoje,
o mundo inteiro sejamos nós

só no mundo inteiro

Revoluções planejadas e convocadas pela internet.
Facebook, twitter, blog, orkut... fazendo o mundo
ficar tão pequeno, como a turma da esquina, que
se encontra todo dia.
Um toque na tecla e lá estamos nós na Europa, no
Grand Canyon ou no Oriente Médio. Não é preciso
ser medium para saber o que se passa do outro lado
do planeta, mas cada vez é mais difícil descobrir o
que acontece no outro lado da própria casa.
O computador é uma janela para o que está distante:
outros continentes, realidades tão diferentes, culturas
extravagantes.
Mas a porta do quarto está fechada e a globalização
é só fachada para iludir a solidão, que olha pelo buraco
da fechadura e, na maior cara dura, vira as costas para
essa solução.