domingo, 5 de agosto de 2012

o teto solar

No dia seguinte, segui nossos rastros
Vestígios de murmúrios sobre o tapete
Sumos de cansaços nada castos
Suores espalhados feito confete

Paredes cochicham inconfidentes
O espelho voyeur não esconde a satisfação
Pelo ar, aromas ardentes
Ao contrário do lençol, o prazer sem um arranhão

O quarto de ponta-cabeça
A minha gira feito pião
Até que de novo aconteça:
o teto abraçado ao chão





sábado, 4 de agosto de 2012

Radical


Acorda meu sono antigo
Escreve nas linhas da vida na minha mão
Temer o risco é um grande perigo
Faz um rapel até o meu coração

Pás


Lugar comum não leva a lugar nenhum.
Vale, sempre valerá a pena arriscar, 
riscando do mapa o acanhamento.


Vamos acampar em Vênus ou em Marte,
levar nossa irreverência para toda parte,
reinaugurar-nos.


Caminhar pela areia, para que as pegadas
sejam apagadas, desapegadas dos nossos pés.
Nossas mãos serão pás cavando promessas,
dessas que se cumpre, para conquistar a paz.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

muito mais


Esqueçamos a cartilha, 
aqueçamos as turbinas,
nos despeçamos do chão
Lá em cima é diferente,
é mais parecido com a gente,
que desgosta do não


Beberemos nossas chuvas,
comeremos nossas uvas,
só não calçaremos luvas,
para não desperdiçar o tato,
que atiça todos os pelos
e rabisca mensagens nos espelhos


É no presente que a gente se segura
Indiferentes à ultrapassada censura,
que nada sabe de nós dois,
muito menos do que virá depois.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Me nina


Menina de verde mirar
Me nina, vem me ninar
Não há dever de mirar
É só por precisão
Procissão de suspiros
pegos de surpresa
Sobre a mesa,
um banquete de gestos
e um cheiro de amor 
que me acompanha
por onde eu for...

A brecha

Por que esse querer impossível?
Anseio pelo calor e pelo frio
Chega a dar calafrio

Chamo o eterno e o transitório,
em transe quase provisório

Por que esse querer impossível?
Se quero que Maria ria,
Rita se irrita
Das duas uma?
Que a tolice nas dunas do esquecimento suma

Em suma, esse impossível querer
possibilita uma misteriosa brecha
por onde se esgueira a suave flecha
que beija o coração do meu bem querer

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Original



O enamoramento é o diálogo profundo entre dois silêncios.
Falam apenas os olhares, ligados por algum magnetismo vertiginoso.
Tudo que aconteceu antes perde completamente o sentido.
Os demais sentidos ficam subvertidos: a visão é restrita ao outro rosto e a alguns detalhes periféricos, tudo que se consegue ouvir são os descompassados batimentos do próprio coração, que tateia na obscuridade do desconhecido, em busca do equilíbrio improvável. Outro fato é que o olfato identifica naquele lugar um aroma quase esquecido, parecido com o parto. Apartados do resto do mundo estão aqueles dois seres e seus tatos estatelados pelo frio glacial na espinha vertebral, em choque térmico com o clima tórrido da maçã do rosto, que pede para ser mordida pela boca mais original que qualquer pecado.