domingo, 20 de julho de 2014

em tempo

O tempo faz com a gente exatamente o que a gente faz com o tempo.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

o futuro do museu

Conte-me uma novidade!
PT e PSDB são os partidos que disputam com mais chances as eleições deste ano. Velhos caciques, velhos índios, velhas aldeias.
Rolling Stones ainda fazem sucesso, os Beatles também fariam, caso estivessem todos ainda vivos.
"Nossos ídolos ainda são os mesmos e as aparências não enganam não".
Talvez porque depois deles não apareceu mais ninguém.
São muitas criaturas e pouca criação, muita propaganda e pouquíssima ação. Nomes desconhecidos são escritos nos muros que nem vergonha dão mais, atores que representam muito pouco, cantores que desencantam, jogadores que chutam nossas esperanças para fora, urnas que não guardam e não aguardam absolutamente nada de novo, surpreendente.
A sociedade exibe seus dentes disfarçados com fotoshop, mas todos os recursos tecnológicos são incapazes de esconder a fome de tantas coisas essenciais. E ninguém me convencerá de que os tempos são outros, que é preciso aceitar a entressafra de imaginação.
Rareiam os filmes geniais, as letras de músicas instigantes, os espetáculos espetaculares, as rimas riquíssimas, os textos que nos conduzem às nossas entranhas.
Câmeras por toda parte flagram nossa insegurança institucionalizada, o medo que compramos e que guardamos em local impróprio, ao alcance de nossos filhos.
Pessimismo faz mal à saúde, assim como fumar, beber e comer em excesso, amar de menos, acumular demais.
Meu otimismo grita, uiva, vocifera para que soltemos nossas feras em seu habitat, onde vivam livres delas e de nós.
Restituam-nos as grandes ideias, os grandes ideais, antes mesmo do próximo lote do imposto de renda. Que a mediocridade se renda e que nossa indignação aprenda a melhor maneira de se indignar, ou seja, sem
perder a dignidade e a identidade com a qualidade, o requinte, o algo a mais que distingue os diferentes de todos e tantos iguais.

sábado, 12 de julho de 2014

olhar bonito

Onde está a diferença entre o belo e o feio?
Naquilo que são ou na produção?
Ou foi o olhar bonito que não veio,
causando toda a confusão?

quarta-feira, 9 de julho de 2014

magia sem cartolas

Ganhar não significa que está tudo certo. Perder não é sinônimo de que tudo deve mudar. Há vitórias enganosas, perigosas, que escondem fragilidades subterrâneas. Algumas derrotas representam os primeiros e decisivos passos em direção às grandes transformações.
Não sei o que aconteceria politicamente, caso a seleção brasileira conquistasse a Copa. Também desconheço o que ocorrerá, após o fiasco dia
nte da Alemanha. E fico muito preocupado com a simples menção ao nexo entre uma coisa e outra. O voto emocional, passional é tão perigoso quanto qualquer outra atitude determinada por uma mente em chamas. A mim, pouco importa o resultado de uma partida de futebol, quando penso na escolha de um Presidente da República. Os nossos destinos não deveriam ser comandados por dados, pela boa ou má sorte de uma equipe de atletas. Não atribuo à escolaridade de um candidato sua boa ou má gestão. A história da humanidade aponta para inúmeros exemplos, em que ditadores, déspotas implacáveis, genocidas gélidos portavam diplomas de cursos superiores. Alguns, senão todos, sentiam-se e comportavam-se como se fossem, de fato, superiores.
O Brasil (e o mundo) precisa de sensibilidade humana, de inteligência emocional, de humildade, indispensável a todo aquele que se propõe a realizar algo grandioso, duradouro. Uma equipe de futebol não conquista vitórias e mais vitórias, a partir de individualidades, apenas. O craque é o toque de classe, o diferencial criativo. Mas nada adiantará se em torno dele gravitarem mentes submissas ao seu talento. Da mesma maneira, o Estado não deve ser personalista. Ao contrário, o bom governo resulta do trabalho em equipe, da associação harmoniosa de competências, da rima perfeita entre as diversas áreas de atuação.
Ao meu modesto sentir, o analfabetismo funcional, entendido como a incapacidade de leitura das diversas realidades de uma cultura, é a patologia social mais grave. Daí defluem a intolerância, todas as malévolas espécies de preconceitos e discriminações, o darwinismo social e o complexo de vira lata, com todas as suas camuflagens, como o elitismo exacerbado e outros espasmos egóicos mascarados, ainda que não seja carnaval.
Não defendo a europeização do Brasil, tampouco que a Europa vista-se de verde e amarelo. Espero que o futebol brasileiro abandone a estrutura arcaica dos cartolas e que jamais perca a ginga, o improviso, a leveza dos dribles quase circenses. Ao mesmo tempo, desejo profundamente que o povo brasileiro, do qual faço parte orgulhosamente, não se contente com pão e circo. Mas sem perder a ternura jamais.

a derrota do personalismo

Que a musculosa derrota para a Alemanha nos liberte do culto à personalidade. Transformamos simples mortais, gente como a gente,
de carne e osso, em semideuses. Superestimamos habilidades específicas, esquecidos de que todos as temos, em maior ou menor
intensidade, em outras áreas. Cortes de cabelos, tatuagens, gírias,
trejeitos, mil bobagens são repetidas como mantras, em delírio coletivo
assustador.
O desfecho precoce da Copa reconduz nossas vidas às nossas vidas.
O deslocamento da realidade para a ficção, a conversão de pessoas comuns em super heróis amputam os nossos poderes reais, verdadeiros.
Eles (os heróis) e nós (os torcedores) possuímos dons diversos, alguns
escritos em versos, outros em prosa. Contudo, ninguém é melhor, mais
importante ou menos mortal por isso ou por aquilo.
Contemporaneamente, cidadão e Estado adotam estratégias opostas. O primeiro quer emagrecer, para ser admirado. O segundo quer engordar, para admirar-se. Há excesso de Estado e carência de estadistas. O que se vê aqui e alhures são "estradistas", que pavimentam suas estradas privativas, protegidos por veículos escuros que os conduzem a destinos ainda menos iluminados. Inacessíveis, incomunicáveis, erguem entre eles
e aqueles que lá os colocam muros colossais, pontes levadiças, rios povoados por crocodilos quase tão famintos como boa parte dos e(leitores), que mal sabem ler os sinais de alerta que estão por toda parte.
O Estado não pode e não deve ser um país à parte.
Quem sabe, num dia desses, a gente tome coragem e decida experimentar o palco e deixar na platéia quem sempre esteve lá, sem merecer os nossos aplausos?

terça-feira, 1 de julho de 2014

Arre!

A imitação em série está acabando com os fora de série, Globalizou-se a criatividade, transformando a "grande sacada" numa varandinha qualquer. Fala-se do mesmo jeito, veste-se do mesmo jeito, ajeita-se o cabelo do mesmo jeito, consome-se do mesmo jeito. 
E eu aqui a rejeitar esses plágios sucessivos, numa era em que sucesso independe de talento, que parece resumir-se a nome de chocolate. 
O grande negócio é empurrar goela abaixo, vender tudo que se fabrica, brincar com os cada vez mais vorazes compradores, num jogo viciado e monótono, capaz de fazer roncar o mais renitente insone.
Pois me arrisco a propor que o risco volte às mentes inquietas, para que se volte a fazer diferente, como aconteceu com todos os gênios em todos os tempos.
Viva a originalidade, a ousadia, a coragem de dar uma banana para o modismo e para o comodismo.
Sem medo de se embananar, pois o pior castigo é ser banal.

domingo, 29 de junho de 2014

eucracia

Nós estamos fazendo o possível. Assim falam médicos para parentes de pacientes impacientes, patrões para trabalhadores e suas dores, empregados de companhias aéreas para passageiros sem asas, governantes para governados desgovernados...Possibilidade e necessidade parecem inconciliáveis, nos quatro cantos do planeta. O necessário é tão pouco provável ou serão necessárias mais provas para obter o que não se tem? 
Médicos também são pacientes e impacientes.
Patrões não conseguem demitir todas as suas dores.
Companhias aéreas perdem o chão.
Governantes voltam a ser o que eram antes.
Fazer o possível é ver somente o visível (ou o que se quer ver), tocar no tangível (para que alguns interesses permaneçam intocáveis), ouvir o audível (pois escutar e entender corações e almas é outro nível).
Concilia-se apenas o que é conciliável, abriga-se o que é abrigável, ama-se o amável, tolera-se o tolerável. E a medida de todas essas coisas é determinada por "estados" soberanos e impenetráveis, a "eucracia".
Ouvi uma frase recentemente que me marcou: "cada brasileiro é um Brasil". Se assim for, abrirei mão de minha cidadania solitária, em prol de
uma utopia solidária. Sou quem sou pela soma do que vejo e me vê, do que toca e me toca, do que ouço e me ouve.
O que houve com todos nós, se estamos deixando de ser nós?