segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

entrelinhas

A palavra do século é insatisfação. Os indivíduos estão insatisfeitos com o Estado e com o estado de coisas que torna coisas mais importantes que indivíduos. Insatisfação com o outro, que parece não enxergar os outros, que somos nós. Insatisfação consigo mesmo, por só enxergar os predicados dos outros e assim sentir-se imensamente prejudicado.
Há crescente rejeição ao modelo de vida que rejeita indecentemente o que se afasta um milímetro dos modelos de perfeição, construídos à feição dos interesses que não nos interessam. Estamos aturdidos com a privatização do que é público e com a publicização do que é privado. Boa parte de nosso tempo é sugado por telinhas. O que sentimos fica sitiado entrelinhas.
What's up? O whatsapp substituiu o abraço?

domingo, 14 de dezembro de 2014

superfície abissal

Não me poupo, então, não me poupem. Quero suar, até que o suor
chegue à fadiga e peça penico. Mas que seja somente o bom suar.
Por isso, bon soir, amigos e amigas de tudo que é incandescente,
o que pulsa forte nos pulsos da gente!
Os ociosos colocam à venda seu tempo. Os ansiosos colocam suas vendas e compram esse tempo, sem saber se o beberão como remédio ou se todo o seu tédio virará passatempo.
Eu pego carona nas asas de um passarinho e me entrego ao vento
lento, sem pressa alguma de que ele pouse no ninho. Amanheci saboreando distâncias incalculadas. Dunas de imprevisão deixando em ruínas todas as rotinas e promovendo um alvoroço na calmaria dos urubus. Carícias inestéticas na areia, que arranhava a sola dos pés,
transformadas em molas. O corpo e a alma em festa, revelando toda a anarquia de sua alegria, em mil e tantos decibéis. E quanta luxúria no luxo das ondas que lambiam meus passos e abraçavam meu olhar, qual anacondas.
Venham a mim as escadas, com seus degraus e graus de inclinação, por mais que hoje eu esteja inclinado às planícies.
Pois o que mais quero é deitar e rolar na superfície abissal do mel e do sal que há em ti, meu amor.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

tobogã

No labirinto hedonista em que nos encontramos, é proibido ficar triste.
Mas também não é permitido sentir-se satisfeito por muito tempo. Tristeza passou a ter por sinônimo depressão. Satisfação tem a conotação de zona de conforto, estagnação, acomodação. Na ausência
de alegria, pílula. Constância de alegria? Uma pílula!!
E lá vamos nós passeando no tobogã existencial, vestidos de vertigens
e miragens. Nas prateleiras, bem à mostra, amostras de corpos perfeitos,
personalidades perfeitas, comportamentos perfeitos. É imperioso ostentar
corpos, mentes e perfis com pouco teor de gordura. Curiosa e paradoxalmente, é preciso ocupar menos espaço físico para conquistar
mais espaço social.
Conectados dia e noite, somos fustigados por uma solidão tão incorpórea
quanto as amizades virtuais. Adotamos progressivamente contornos mais virtuais que virtuosos. Como surfistas sem pranchas, vamos nas ondas,
entramos nos tubos, mas morremos de medo de afogar-nos na arrebentação. Só treinamos nadar a favor das correntezas, em direção
às "científicas" certezas que são despejadas sobre nós como esgotos nos
rios e oceanos. E assim esgotados pela perversidade de tantas metas,
aturdidos pelas direções tão opostas de tantas setas, precisamos de um
tempo só para nós. Uau, como é gostoso soltar os nós apertados e redescobrir prazeres antigos, como andar com os pés no chão! E sem renunciar à delícia de voar com as próprias asas.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

linhas tortas

Poeta e poesia não se confundem
Mas é na procura que eles se fundem
A poesia busca a cumplicidade do leitor
O poeta é por ela procurado e lhe agradece o favor
Poesia e poeta amam a verdade
Mas essa senhora nem sempre é desejada
Alguns preferem a satisfação de sua vontade
E beijam sua mão, para que lhes venha de mão beijada
Intenções se perdem no telefone sem fio
O certo pode ser escrito por linhas tortas
Convencer a si mesmo é o maior desafio
Poesia e verdade jamais serão letras mortas.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

leoas e mosquitos

Quantas belezas feias
Leoas quando caem em teias
viram mosquitos
Quantos contornos esquisitos
Tudo tão igual
Quem se quer bem não se faz mal
Quero ver a luz
É ela que me seduz
Futuro que olha pra nuca
funde a minha cuca
Não afundemos na mesmice
Fazer careta pro espelho é caretice
A vida ensina uma verdade profunda
A cara da felicidade não fica na bunda

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

não é hora de partir

Eterna juventude, corpo perfeito? Cai nessa, não. Antes do corpo, mutila-se a mente, submetida à pressão cruel dos paradigmas eleitos e reeleitos
pela gulosa mídia. A comédia humana ganha contornos de tragédia, à medida em que a felicidade é determinada pelas medidas. A balança parece pender para os que dependem dela para sorrir. Sorry! O sorriso verdadeiro está na periferia dos que se arrependem do que são. E, cá pra nós, estar são é o que realmente importa. Qual a necessidade de importar padrões cruéis, que despencam ditatorialmente sobre a autoestima da gente? Para que aceitar que não nos aceitem, a menos que sigamos a receita dos faquires?
A beleza não está nos olhos de quem a vê, mas nos olhos que têm a ver,
concorda?
Cultivar hábitos saudáveis, praticar exercícios, dar umas corridinhas ou caminhadas, evitar comidas industrializadas e só fazer muito amor, que amor não faz mal, isso os médicos e qualquer pessoa antenada faz ou deseja fazer. Mas se desfazer, submetendo-se à escravidão de critérios absurdos é tornar-se surdo ao que diz o próprio coração.
É tempo, isto sim, de almas saradas e não de almas paradas. Como disse Zeca Baleiro: "eu disse calma alma minha, calminha, ainda não é hora de partir..."

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

saudade sem pressa

A saudade intransitiva
Que em transes se expressa
Atemporal, permissiva
Quase distraída, uma saudade sem pressa