Quero o grito mais profundo, alguma coisa tão diferente, que pareça vir de outro mundo. Quero a timidez desvirginada, vestida de desejo e mais nada. Quero torrentes de calores e frios, enfeitando minha pele de arrepios. Quero abdicar de todo aprendizado, deixando o tédio completamente entediado. Quero nova terra e novo céu, provar a chuva com gosto de mel. Quero vontades escancaradas menos atentas às saídas que às entradas. Quero redimir desistências e arquivar para sempre as penitências. Quero comemorar a volta da simplicidade, quero paz e alegria na minha cidade. Aos humildes exaltação, aos exaltados compreensão. Quero a noite com sabores e o dia sem dissabores. Quero crianças na escola e não na prisão, reprimir a desigualdade e distribuir compaixão. Quero abrir as gaiolas medievais e lutar para que não se fechem nunca mais. Quero apontar para o esquecido uma chance e torcer para que ele a alcance.
sexta-feira, 5 de junho de 2015
quinta-feira, 4 de junho de 2015
Ateus
Acreditávamos que a velhice era o portal da sabedoria. Após mais ou menos seis décadas, construímos o pressuposto da maturidade emocional, algo que induzia à ideia do equilíbrio,
serenidade, mansuetude.
Contudo, fatos recentes conspiram contra tal compreensão. Longevidade começa a desenhar-se como mero acúmulo de primaveras. Ao mesmo tempo, é chocante a percepção de que septuagenários, octogenários sejam também colecionadores
de outros artigos, alguns deles inclusos no Código Penal.
Céus! Poderiam ser nosso avôs e possivelmente têm netos.
O que estarão dizendo a seus descendentes? Quais as desculpas para culpas tão graves, se é que se desculpam ou mesmo sentem-se culpados. Talvez nutram desde sempre a
máxima de que ser rico é o máximo a ser aspirado pelo ser humano. Opulentos céleres, na busca infindável de amealhar vantagens, regalias, privilégios. Capazes de atropelar princípios, pela supremacia dos fins a que se propõem.
Que herança maldita legarão aos seus, hein? Metais, papéis, atas de negociatas. Materialmente aristocráticos, espiritualmente plebeus. Mas é provável que para esses neo senhores feudais todos os demais, que não compartilhem a sua cega adoração ao capital, sejam periféricos ateus.
serenidade, mansuetude.
Contudo, fatos recentes conspiram contra tal compreensão. Longevidade começa a desenhar-se como mero acúmulo de primaveras. Ao mesmo tempo, é chocante a percepção de que septuagenários, octogenários sejam também colecionadores
de outros artigos, alguns deles inclusos no Código Penal.
Céus! Poderiam ser nosso avôs e possivelmente têm netos.
O que estarão dizendo a seus descendentes? Quais as desculpas para culpas tão graves, se é que se desculpam ou mesmo sentem-se culpados. Talvez nutram desde sempre a
máxima de que ser rico é o máximo a ser aspirado pelo ser humano. Opulentos céleres, na busca infindável de amealhar vantagens, regalias, privilégios. Capazes de atropelar princípios, pela supremacia dos fins a que se propõem.
Que herança maldita legarão aos seus, hein? Metais, papéis, atas de negociatas. Materialmente aristocráticos, espiritualmente plebeus. Mas é provável que para esses neo senhores feudais todos os demais, que não compartilhem a sua cega adoração ao capital, sejam periféricos ateus.
quarta-feira, 3 de junho de 2015
corredores do tempo
O tempo corre, a vida escorre e tudo transcorre em aparente naturalidade. Corro da cama para o trabalho e dele para ela.
Corro para pegar o ônibus e ele para me pegar. O sangue corre em minhas veias, inflando as velas que fazem o barco correr.
Cruzo os corredores correndo, corro para abraços nômades, que não conseguem parar, que não podem parar. E não reparo em tantas coisas que merecem reparo. As teclas correm para os meus dedos, assim como as mensagens para meus contatos.
Corro para abrir e fechar contratos, para estampar retratos exaustos de tanto se multiplicar. Corro para amar o meu amor, que pode estar correndo para amar-se e só então poder me amar. Corro para o dia que ninguém sabe se virá, mas meus pés sabem se virar para chegar antes de outros pés. As notícias correm pelo mundo e ele em busca de novidades. Mas elas se cansam de correr, mudam de idade, de cidade. Quanta praticidade nas maratonas que colecionamos. Lecionamos disciplinas indisciplinadas, caçamos apogeus, desprezamos a simplicidade. Escalamos Pirineus e calibramos os pneus todo dia, por causa do desgaste. À noite, a exaustão corre pra gente e alguma coisa nos diz que é cada vez mais urgente aprender a descansar.
Corro para pegar o ônibus e ele para me pegar. O sangue corre em minhas veias, inflando as velas que fazem o barco correr.
Cruzo os corredores correndo, corro para abraços nômades, que não conseguem parar, que não podem parar. E não reparo em tantas coisas que merecem reparo. As teclas correm para os meus dedos, assim como as mensagens para meus contatos.
Corro para abrir e fechar contratos, para estampar retratos exaustos de tanto se multiplicar. Corro para amar o meu amor, que pode estar correndo para amar-se e só então poder me amar. Corro para o dia que ninguém sabe se virá, mas meus pés sabem se virar para chegar antes de outros pés. As notícias correm pelo mundo e ele em busca de novidades. Mas elas se cansam de correr, mudam de idade, de cidade. Quanta praticidade nas maratonas que colecionamos. Lecionamos disciplinas indisciplinadas, caçamos apogeus, desprezamos a simplicidade. Escalamos Pirineus e calibramos os pneus todo dia, por causa do desgaste. À noite, a exaustão corre pra gente e alguma coisa nos diz que é cada vez mais urgente aprender a descansar.
quarta-feira, 20 de maio de 2015
de trivela
Amor, companheirismo, ternura
Tudo que de mais sutil a alma revela
A melhor resposta para a melhor procura
Deve ser dada com classe, de trivela
Tudo que de mais sutil a alma revela
A melhor resposta para a melhor procura
Deve ser dada com classe, de trivela
E até repreensão e censura
Não devem ser dadas de bico
Ênfase não na doença, mas na cura
Olhar construtivo aponta sempre o abrigo
Não devem ser dadas de bico
Ênfase não na doença, mas na cura
Olhar construtivo aponta sempre o abrigo
sexta-feira, 15 de maio de 2015
confissões
Confesso minha predileção pelas confissões. Não as religiosas, mas as profanas mesmo. Aquele turbilhão de palavras escorrendo da boca como hordas de torcedores depois de uma grande decisão. Curto declarações hemorrágicas, tanto pela cor apaixonada quanto pela profusão. Nada de parênteses, notas de rodapé, parágrafos organizados. É adorável o caos da espontaneidade, cais onde embarcam e desembarcam verdades escancaradas, despreocupadas com qualquer estética. Eis o paraíso da ética pura, selvagem, in natura, de cara lavada, sem maquiagem. Assuntos misturados, sem vírgulas. Destemidos como Virgulino, imponentes como violinos. Convenientemente distantes da censura dos corretores ortográficos. E sem couvert, direto ao prato principal. Dando nomes aos bois, mesmo que dê bode.
quinta-feira, 14 de maio de 2015
guinada
Talvez para mim o mundo não tivesse jeito
Talvez o súbito abismo, de tão fundo,
nem coubesse no meu peito
Talvez eu aceitasse as regras
de um jogo muito sem graça
Talvez eu até me tornasse indiferente
ao que mal chega e já passa
Talvez eu abandonasse meu time
depois de um caminhão de derrotas
Talvez eu acreditasse que as exclusões
seriam abolidas por cotas
Talvez eu renunciasse às escolhas
e escolhesse a mais silenciosa abstenção
Talvez eu anunciasse no meio da rua
que só caminharia na contramão
Talvez minha voz cedesse sua vez
àquelas que fazem tanto barulho
Talvez eu pudesse decorar tantas teorias vazias
até transformar minha mente num estranho entulho
Talvez eu me acostumasse com direitos elementares
enterrados em cova rasa
Talvez minha indignação nem se iluminasse
com tanta escuridão na faixa de Gaza
Talvez eu sentisse conforto no ceticismo
e me escondesse na solidão
Talvez eu distraísse minhas angústias
com circo e pão
Mas nada disso eu consigo,
pois uma chama misteriosa me chama dizendo: que nada!
E essa guinada permanece comigo.
Talvez o súbito abismo, de tão fundo,
nem coubesse no meu peito
Talvez eu aceitasse as regras
de um jogo muito sem graça
Talvez eu até me tornasse indiferente
ao que mal chega e já passa
Talvez eu abandonasse meu time
depois de um caminhão de derrotas
Talvez eu acreditasse que as exclusões
seriam abolidas por cotas
Talvez eu renunciasse às escolhas
e escolhesse a mais silenciosa abstenção
Talvez eu anunciasse no meio da rua
que só caminharia na contramão
Talvez minha voz cedesse sua vez
àquelas que fazem tanto barulho
Talvez eu pudesse decorar tantas teorias vazias
até transformar minha mente num estranho entulho
Talvez eu me acostumasse com direitos elementares
enterrados em cova rasa
Talvez minha indignação nem se iluminasse
com tanta escuridão na faixa de Gaza
Talvez eu sentisse conforto no ceticismo
e me escondesse na solidão
Talvez eu distraísse minhas angústias
com circo e pão
Mas nada disso eu consigo,
pois uma chama misteriosa me chama dizendo: que nada!
E essa guinada permanece comigo.
sexta-feira, 1 de maio de 2015
singularidades
Ao conversarem entre si, duas pessoas jamais falarão da mesma rua, cidade ou país. Ainda que o nome seja o mesmo, esta será a única coincidência. O significado de cada coisa é único e inconfundível para cada um. Isso vale para lugares, pessoas, comidas, acontecimentos e ideias. Se João fosse meu pai e patrão de Pedro, quando eu dissesse
algo a respeito dele, não estaria me referindo ao empregador de Pedro, mas ao meu pai.
Essas variáveis tornam a vida encantadora. E nos provocam a perceber a inutilidade das tentativas de colonização do outro. Ninguém está certo ou errado quando emite uma opinião. Ela será a imagem do sentimento, da emoção, da memória que prevalecem naquele momento para aquele indivíduo. E mesmo assim tudo isso se sujeita ao princípio geral das metamorfoses individuais. Vivas às luas, às marés, às estações, aos ventos e a tudo que se perpetua por ser infinitamente diferente.
Adaptando a citação bíblica: diga-me que andas e dir-te-ei que és.
algo a respeito dele, não estaria me referindo ao empregador de Pedro, mas ao meu pai.
Essas variáveis tornam a vida encantadora. E nos provocam a perceber a inutilidade das tentativas de colonização do outro. Ninguém está certo ou errado quando emite uma opinião. Ela será a imagem do sentimento, da emoção, da memória que prevalecem naquele momento para aquele indivíduo. E mesmo assim tudo isso se sujeita ao princípio geral das metamorfoses individuais. Vivas às luas, às marés, às estações, aos ventos e a tudo que se perpetua por ser infinitamente diferente.
Adaptando a citação bíblica: diga-me que andas e dir-te-ei que és.
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