domingo, 28 de junho de 2015

maneiras maneiras

Há muitas maneiras de viver o domingo. 
Alguns preferem à flor da pele. 
Outros, dormindo.
Há muitas maneiras de viver. 

Algumas mais maneiras. 
Outras, vai saber...

o tesouro

Qual o maior tesouro:
tez ou ouro?

sábado, 27 de junho de 2015

as portas

São duas portas, feitas com afinco.
Que levam e trazem.
Duas portas sem trinco.
Que nunca se fecham e nem se abrem.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

ferrão e mel

Seja você, despudoradamente
Seja integral, com casca e sabor
Seja o corpo da sua semente
Seja lá o que for
Seja Sol e Lua no mesmo céu
Seja aquarela, que não escolhe cor
Seja abelha, com ferrão e mel
Seja tudo que é, com amor

domingo, 21 de junho de 2015

harmonia

A única forma de ser verdadeiramente humano é perceber e aceitar as inúmeras formas de ser humano. Assim, o masculino e o feminino podem (e são) exercidos pluralmente. Pouco a pouco e cada vez mais despontam comportamentos, que só enriquecem o repertório de originalidades. Tendências, apetites, aptidões, estilos quase tão diversos quanto os indivíduos. Não me choco com dois homens ou duas mulheres expressando carinho e desejo entre si. O que me aturde é a idiotice da intolerância, do repúdio àquilo que, possivelmente, é mantido acorrentado nos porões do intolerante, tão raivoso quanto inseguro. Espero que muito em breve cristãos, muçulmanos, espíritas, judeus, palestinos e xiitas acolham-se, sem que seja preciso encolher diante das próprias escolhas. O amor e o desejo não são hétero, homo, bi ou trans. Plúrimos é o que são e somos, tão mais felizes quanto mais livres formos. Viva o afeto inteligente, que torna tão normal o diferente!

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Até quando?

Com a globalização das verdades, pesos e parâmetros passaram a ser definidos ditatorialmente pela voz mansa e sedutora da propaganda. Assim, a supremacia (individual e coletiva) tornou-se a grande vedete das prateleiras, objeto de desejo de 11 entre 10 entrevistados. Busca-se performance, desempenho, resultado, vitórias, conquistas. Por isso, o repouso está em baixa. Quem ousará declarar-se exausto, no limite, se não haverá quem o imite? Todos ou quase todos caçam recordes, que devem ser superados sistemática e desumanamente. Você é o que suas medalhas e troféus, metafóricos ou não, dizem que é. E se não os tiver, deixa de ser. É preciso ter para ser. Desde uma barriga negativa
até investimentos financeiros mega positivos. Os sinais exteriores de prosperidade e riqueza certificam o pedigree, a superioridade, ensejam exclamações de bocas e olhos escancarados de fascínio. Concomitantemente, também são detonadores de outros sentimentos, de índoles diversas. Inveja, daqueles que cultivam os mesmos valores, mas apenas interiormente. Indignação, dos que gostariam de ser mais valorizados pelo que são e fazem. Que fase!
A lógica do pragmatismo impiedoso e tacanho resulta na defenestração de muitos profissionais. Pouco importa a seriedade do trabalho deles. Investimento na própria formação, planejamento estratégico, fortalecimento do grupo...nada disso segura a fome insaciável do imediatismo. Amanhã é tarde demais, depois de amanhã é nunca mais. A máquina de moer nomes e projetos é anônima e reduz tudo a meros dejetos. X é substituído por Y, este por Z e a ciranda não termina jamais.
Vivemos sob o jugo da ideia da perfeição, da infalibilidade, da hegemonia.
Até quando?

sábado, 6 de junho de 2015

Barcéulona

Aturdido por tantas notícias ruins, assolado por escândalos e por uma escandalosamente prolongada entressafra de talentos, eis que, diante de meus olhos desabituados de admiração, jogam Barcelona e Juventus a finalíssima da Copa dos Campeões da Europa. Fora apenas uma partida de futebol e seria o bastante para aqui declarar meu entusiasmo. Explico: ontem tive o desplante de passar hora e meia sendo torpedeado por cenas paupérrimas do jogo Botafogo e Mogi Mirim. Diga-se de passagem, esse confronto não fica muitíssimo distante de tantos outros que castigam os torcedores de futebol mais abnegados.
Barcelona e Juventus redimiram a mim e a todos que, quase esquecidos dos fundamentos mais elementares do esporte bretão, estão a um passo de habituar-se com a tragédia dos passes mais equivocados que os políticos pátrios. E na classe política incluo, como deveria fazer, muitos dirigentes de entidades desportivas. Afinal de contas, eles também têm estranha resistência às prestações de contas e ainda mais insólita paixão pela obesidade de suas próprias contas (bancárias).
O Barcelona, da Espanha, representa a técnica apurada, o virtuosismo, a primazia da ofensividade, o fascínio pelos beijos da bola nas redes adversárias. A Juventus, velha senhora italiana, a despeito de bons jogadores, adota estratégia mais defensiva, o pragmatismo de apostar no erro fatal do oponente, a objetividade cartesiana, sem compromisso assumido com o encantamento.
Por tudo isso, escolhi a equipe catalã como minha favorita, por indiscutível identificação com o que ela significa no cenário futebolístico atual e no imaginário do embate entre poesia e concretude.
Vieram-me à mente as impagáveis conversas de bar, pessoas a quem se quer bem, a descontração, a informalidade, os guardanapos tatuados de rabiscos inspirados. Paralelamente, a visão de incontável aglomeração de estrelas no céu, convidando às mais alucinadas abstrações. Para completar, a magia guardada pela lona do circo, a leveza plástica dos trapezistas, a alegria dos palhaços, as surpresas das cartolas dos mágicos.
O lúdico, o etéreo, o enigmático contrariando o lúcido, o sólido, o invariável.
Assim é e foi o Barcelona hoje: embriagante como as resenhas dentro de um BAR, estelar como o CÉU que nos tira do chão, envolvente a ponto de levar à LONA o adversário. Barcéulona, desculpe-me pelo neologismo e receba meus aplausos de pé, pela capacidade de fazer com os pés as fundamentais carícias no corpo e na alma da arte, mãe de todas as coisas mais belas.