segunda-feira, 6 de junho de 2011

ao céu

Preciso devolver ao céu as estrelas que ele me emprestou
Assim que anoitecer, deixarei que elas saiam de meus versos
Eram elas que iluminavam minhas palavras, naqueles poemas
A onda, a brisa, a nuvem, a lágrima e o sorriso não se repetem
Temo que poucos tenham percebido suas ausências
Talvez pelo hábito de olhar o todo, sem tropeçar nos detalhes
Seja como for, de agora em diante, haverá mais luz lá em cima
E aqui permanecerão comigo o motivo e a saudade de cada uma delas


domingo, 5 de junho de 2011

dois atos

Primeiro ato

Gritei tanto que não fui ouvido. Corri demais e permaneci onde estava.
Quis tão afoitamente que o desejo assustou-se. Persegui o tempo, soprei
a ventania, desprezei a cautela, caí da cama. Achei que perderia e a perda
já estava achada.

Segundo ato


Fui ouvido no silêncio. A quietude levou-me mais longe.
O desejo desejou-me, sem instigar minha resistência. Fiz as pazes com os
segundos, abdicando de ser sempre o primeiro, aventei novas possibilidades,
apaixonei-me pela calma, caí na cama. Achei-me na perda, perdendo o medo
de me perder.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

um sinal

Nunca mais é tempo demais
É dezembro toda hora
Todo o futuro agora
São manhãs que se repetem
Cartas devolvidas
Vidas mal resolvidas
Porta fechada sem fechadura
A arma mais dura que mata o talvez
Sinal muito envergonhado
Sonho desacordado
Calafrio no verão
Rasteira na lembrança
Esperança na gaveta
nunca mais...



divisão de classes

Nerds e populares são frutos dos respectivos lares.
Aprendem cedo que lugar ocupar, mas não sabem a quem culpar.
Uns sentam bem na frente, embora sejam excluídos.
Outros preferem as últimas cadeiras e acreditam que passam todos pra trás.
Nerds são bons de nota, mas não são notados.
Populares são bons de bola, mas se embolam.
Nerds não precisam de cola para passar.
Populares passam pela escola para colar.
Nerds se escondem na biblioteca.
Populares se escondem na bicicleta.
Nerds não se acham os melhores.
Populares seriam melhores, caso se achassem.
Para os populares, nerds são peões e serão comidos.
Para os nerds, populares são leões que só têm rugidos.
Populares vivem rodeados por damas.
Mas os nerds é que entendem de xadrez.



quinta-feira, 2 de junho de 2011

céu da boca

O meu lar não tem lareira
Mas creia, sequer caberia
E a gente ria dessa gente tão fria
E olha que frio não faz lá em casa
E se calor fizer, nós deitamos no rio
Nos deleitamos com a neve que não há
Tão fugaz será o inverno naquela moradia
Um dia, mais breve que pensas, desatamos o nó
Já que moramos só nós, repartimos lençóis, repentinos fatores
que alteram o produto, em meio a tanta desordem, a todos acordem
Pois quando a noite vier, seremos dois sóis, no céu da boca da própria noite

errático

De mim, vertem sonhos. E me divertem, com toda a sua irreverência.
Tudo é possível quando a imaginação se liberta, correndo de pés
descalços, com o corpo todo suado de satisfação.
É com esses sonhos que me visto, pouco me importando se estou na
moda. Não me incomoda a nudez do olhar crítico.
Meus fantasmas fazem poemas, andam de mãos dadas, saboreiam
o vento da madrugada. Eles buscam tanto ar, que parecem padecer
de asma, mas é o resultado de tanto querer. São erráticos como eu,
por isso erramos, berramos, beiramos a loucura no frenesi da busca.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

de trás pra frente

A distância aumentou quando me aproximei dela.
Falávamos um do outro, não um para o outro.
Não nos víamos mais, a cegueira encobriu o sentimento,
como fumaça densa que esconde toda a paisagem.
Havia palavras sobre o chão, nas quais pisamos sem perceber.
A mesa estava vazia de apetites, desapareceram a fome e a sede de amar.
Apagamos nossa história e pagamos o preço dessa amnésia.
A porta aberta permitiu que o fascínio saísse e que a gente se descobrisse
e o frio entrou.
Uma pergunta sem resposta e a brincadeira termina do jeito que a gente não gosta.