segunda-feira, 8 de agosto de 2011

o sorriso da liberdade

Quero percorrer tuas estradas, feitas de pegadas
e de paisagens que se soltam com generosidade.
Ouvir teus caminhos, acariciar os espinhos que
os protegem, conversar com as nuvens em que
repousam tuas vontades adormecidas, convencê-las
de que poderão confiar a mim algumas delas, para que
despertem em segurança.
Quero provar dos frutos de tua imaginação e distribuir
as sementes por toda parte, para que haja mais arte
no mundo.
Mas não quero emoldurar teu sorriso. Pássaros cantam
muito mais bonito fora de gaiolas. Tuas palavras livres
têm o som de violas e é assim que encantas. Violando
tabus, contrariando a cartilha, realizando a partilha do
que colhemos em nós.


domingo, 7 de agosto de 2011

ser são

O tesão deve ser são
Entre corpos, entre mentes
Entrementes, sem ser vão
Sob o céu, sobre a mesa
E a sobremesa é sempre desejável
Na presença, na saudade intensa
Insuflando, inflamável
Em transe, intransitivo
Jamais um mero aperitivo
A dois, a sós
Desenhando luas e sóis
Antes e depois
Tesão para receber e para dar
Para perceber, sem olhar
Tesão para cobrir e descobrir
Para investir e se vestir
Tesão para correr e relaxar
Para se achar e se encaixar
Para simplesmente ser, sem se cansar

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

o beijo

Desisti de ouvir notícias. Afinal, gosto de novidades.
Cansei das fofocas mundanas, das crises cíclicas do
capital, dos escândalos cínicos da Capital.
Na contramão da história, quero que me roubem. Calma!
Um roubo específico, em ato pacífico. Que me seja roubado
um beijo. E não precisaria devolver. Mas que fizessem bom
proveito. Ele bem poderia ser lançado ao ar, como um
espirro, para que contaminasse outras bocas. Um beijo
itinerante que, ao desconhecer fronteiras, desprezar ideologias,
se hospedasse em lábios de todas as etnias. Mas um beijo
humano e não divino, pois impregnado de desejos, temperado
por paixões. Um beijo assim, sem senões, sem sermões.
Imaginem o que seria um beijo tão atípico, viajando por aí,
sobrevoando medos, solidões, beijo que selaria perdões,
que abriria portões. Um beijo apátrida e sem bandeira, mas 
beijo com eira e à beira da loucura de ser tão livre, mas tão livre
que não se prendesse em boca alguma, que não se perdesse na
banalização. Um beijo sem passado, alheio ao tempo, que não
fosse passatempo. Um beijo que transbordasse sentimento no
momento em que outro beijo o encontrasse.


quarta-feira, 3 de agosto de 2011

ingenuidade

Lembranças das brincadeiras ingênuas e das besteiras nuas que
provocavam risadas. 
Duas crianças crescidas que adormeciam
abraçadas às próprias travessuras. 
A satisfação sem rasuras,
estampada no espelho, com a sua assinatura.
 

doces e bárbaros

"O seu amor ame-o e deixe-o...
livre para amar..."

Pois além de você, ele ama o que vê
e o que não vê, ama como se deve amar,
sem se enredar, para se dar de verdade,
reservando espaço para a saudade.
Para ser cais e não caos, para ser mais.

"O seu amor ame-o e deixe-o...
ir aonde quiser..."

Que ele vá e venha, pois conhece a senha
que o próprio querer lhe entrega. Que haja
plena entrega e a plenitude jamais será cega,
de tal maneira que a insegurança não conceda
o que a vontade mais profunda (e legítima) nega.


"O seu amor ame-o e deixe-o...
brincar, correr, cansar, dormir em paz..."

Conheça-o, mereça-o, despeça-se dele, para
possibilitar o reencontro. Principalmente, vá ao
e não de encontro. Construa pontes levadiças,
pois você também precisa de retiro. Evite o tiro
no próprio pé, não fira o que você admira, não
prenda, aprenda.


"O seu amor ame-o e deixe-o...
ser o que ele é..."

Entenda que a vida é um sendo, é gerúndio, que
o amor não deve ser um latifúndio, delimitado por
cerca. Acerca disso, perceba: é exatamente a
perda o que nos leva a achar.

Nota de rodapé: as frases abrigadas por aspas pertencem
à letra de "O seu amor", dos Doces bárbaros (Caetano Veloso,
Gal Costa, Gilberto Gil, Maria Bethânia) . As demais são
dedicadas a todos os que têm a coragem de lançar-se na
aventura mais desafiadora - a arte de amar. E amar, como
as aspas, abriga, sem obrigar. Por vezes, há briga, mas que seja
para irrigar. Sobretudo, saber que ninguém é tudo e ainda assim
é um sortudo quem lhe souber amar.






terça-feira, 2 de agosto de 2011

ensejos

O desejo se esgota após a última gota
Aproveita o ensejo e renova sua cota
Onde ele se esconde quando ela cai?
E o que retorna não é o mesmo que sai





segunda-feira, 1 de agosto de 2011

oferta e procura

O coração contraria as regras da economia.
Carinho quanto mais se gasta, mais se tem.
Para quem compra, quanto mais há preço, pior.
Para quem ama, quanto mais apreço, melhor.
O aplicador deseja acumular.
O enamorado acumula desejos.
Nas finanças, quem poupa manda bem.
No amor, ninguém manda, nem se poupa.
O consumista tem muita roupa.
O amante tira toda.
Com dinheiro compra-se.
Afeto é para dar de graça.
Nos negócios, é contrato.
No amor, é com muito trato.