sábado, 3 de setembro de 2011

natureza

Existe algo em cada um de nós a que podemos chamar de "natureza"?
Os naturalmente pacientes ou impacientes, acomodados ou incomodados,
protagonistas ou coadjuvantes, tímidos ou espalhafatosos, formadores de
opinião ou neutros.
Não sei se nasci com essa ou aquela natureza. Minha memória alcança um
garoto tímido, que reunia palavras em qualquer pedaço de papel e colegas
para jogar futebol, em qualquer pedaço de calçada. Esse menino que visito
de vez em quando, como se entrasse num museu do tempo, adorava aprender,
não colava, mas sua alma calava diante do desamor. Ele não entendia a dureza
do olhar e do falar, a intolerância dos adultos, o dialeto estranho dos insultos.
Recorria sempre às imagens poéticas para enfrentar situações inestéticas, como
portas fechadas e becos aparentemente sem saída.
O moleque cresceu e se pergunta se a tal natureza mudou ou se alguma coisa
ficou, de lá para cá.
Será a tal natureza que torna a vida tão urgente? Por isso a imprescindibilidade
de amar tanta gente?
Temor e amor não precisam estar juntos,  mas dissociá-los remete paradoxalmente
ao que se intromete em toda relação - a separação. E como é difícil compreender
que o perto se distancie, que o diálogo silencie, que o calor esfrie tanto.
Quantas vezes as portas se fecham e as saídas desaparecem dos becos! E voltam
os ecos! E retorna o menino, com a tal da "natureza" debaixo do braço, sem querer
ser refém, buscando um hífen que o leve bem mais além, bem mais leve!



4 comentários:

  1. Acho, Hélcio querido, que vc é menino por natureza e adulto por circunstâncias... só as crianças (e os poetas) amam a vida sem censuras hipócritas e as pessoas como se não houvesse amanhã. Só as crianças (e os poetas) comprometem-se mais com o amor do que com o compromisso. Só as crianças (e os poetas) amam a cada qual com o amor que lhe cabe, sem dolo e sem culpa.
    Se vc não entendeu nada do que eu quis dizer, talvez seja porque hoje to me sentindo muito poeta (criança) e isso é bom demais. Entendo quase tudo, e não preciso explicar muito... essa é magia de ser criança... ou poeta...


    PS: "Minha memória alcança um
    garoto tímido, que reunia palavras em qualquer pedaço de papel e colegas
    para jogar futebol, em qualquer pedaço de calçada."

    Absolutamente genial!

    ResponderExcluir
  2. Lua, entendi suas palavras. Só não sei se foi a criança ou o poeta rs
    Creio que a poesia e a meninice são feitas da mesma magia, que é o encantamento pela vida e por tudo que há de belo na experiência incomparável de viver.

    ResponderExcluir
  3. não sei se visitas esse menino de vez em quando, ou se é ele que não quer deixar que te percas dele.
    há "coisas" que os meninos [porque o são] nunca vão entender [e ainda bem], nem os adultos habitados por eles.
    o amor não conhece o medo, se anda solto e feliz, mas por vezes, o silêncio não é sinónimo de um calor que esfria, mas uma dor que não se sabe ultrapassar e não se souber encontrar o sitio certo da mão estendida...
    beijo Helcio.

    fiquei contente por te teres lembrado de mim na tua escala por aqui:))

    ResponderExcluir
  4. Realmente, coisas há que nem o menino, nem o adulto, ambos em mim, sabem. Ainda bem, né, Maria?
    Quem sabe a escala, outro dia, seja o destino.

    ResponderExcluir